O Preço da Dignidade (TEXTO SÉRIO E VERÍDICO).

Hoje tive uma experiência no mínimo triste.

Saí mais cedo da faculdade. Aula de inglês é chata. Não pela professora que é maravilhosa, mas por mim. Por eu não gostar nada dessa língua.

Quando cheguei na estação da Sé pela linha azul, havia uma senhora sentada ao meu lado. Devia ter uns quase 85 anos de idade. Carregava bolsas, e se via que ela tinha energia de espírito, mas seu corpo era inteiramente frágil.

Pra quem me conhece, sabe que eu tenho mais compaixão de idosos do que de crianças. Isso é um fato.

Eu já pensei em ajudá-la quando chegou na Sé, mas antes de eu me manifestar, ela me pediu ajuda. Peguei suas bolsas e saímos de braços dados do vagão. Fomos ao elevador central da estação e fomos para o andar de cima rumo a Itaquera. Conversamos sobre como o metrô estava cheio de pessoas. Incrível como conversar com idosos é muito mais significante do que falar abobrinhas com meninas de idade entre 20 e 25 anos.

Entramos no vagão. Logo ofereceram para ela um assento no trem lotado. Nos separamos por hora. Antes disso ela me agradeceu e eu sorri.

No Tatuapé, em meio a multidão, ela desceu para fazer baldeação para o trem. Mais uma vez eu quis ajuda-la e desci de lá com ela. Ela riu formosamente ao me perguntar se eu descia ali mesmo e eu respondi que iria até a estação Patriarca.

Acompanhei-a até o piso acima, e meu objetivo era deixá-la dentro do trem da CPTM.

Mas ao chegar na escada rolante da CPTM ela me impediu. Disse que era conhecida dos guardas do trem, e que dalí eles a ajudavam. Achei estranho ela querer descer as escadas sozinha, mas se ela disse, as ordens eram dela.

Me afastei e ela pareceu confusa. Eu a observava de longe pra saber se ela acertaria a escada com aquelas bolsas. Uma garota parou ao lado dela. Devia estar oferecendo ajuda. Depois a menina se distanciou.

Então a senhora caminhou até o lixo da estação e começou a revirar o que havia dentro. Dei dois passos pra frente e pestanejei. Parei de novo. Eu tinha uns trocados na carteira para oferecer, mas em momento algum ela pareceu uma pessoa que precisava. Ela era digna. Parei ali, estacado, e não voltei até ela. Dei as costas e tomei meu rumo.

Eu poderia tê-la ajudado, sim… Mas e se eu ferisse a dignidade dela? Ela teve muito tempo para me pedir dinheiro e não o fez, pelo contrário; ela me distanciou para que eu não olhasse o que ela realmente fazia ali. Eu não poderia ferir a dignidade daquelas rugas que devem ter passado por tantas coisas.

Ela me disse, enquanto esperávamos o elevador na Sé, que estava com problemas na coluna, e por isso precisava de ajuda para carregar as coisas. Ela disse que foi ao médico, coisa que agora eu duvido.

O médico dela era sua dignidade. Sua força de espírito.

Me perdoem se pareço patético com este texto, mas isso mexeu demais comigo. Nunca quase chorei em uma situação assim. Nunca tive tanto orgulho de uma pessoa e raiva de como os humanos funcionam.

Aquela senhora… Aquela senhora não dependia de ninguém, e nem pediu nada enquanto eu fazia apenas o que eu gostaria que fizessem pela minha vó Bia. Ela só me pediu pra carregar suas bolsas pra, em segredo, continuar caçando qualquer coisa nos lixos que nós desprezamos.

Tive uma lição de dignidade hoje, e me sinto triste por ver jovens sem dignidade alguma por aí.

Mas no fim das contas, qual o preço da dignidade? Quanto vale o orgulho?

Eu não sei.

Você sabe?

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As diferentes pessoas que sou de mim mesmo.

Em alguns momentos da minha pífia existência eu cheguei a pensar sobre o que é que eu fiz de tão errado.

Cheguei a passar noites pensando sobre alguma escolha que fiz que teria sido errada. Algumas delas eu, hoje, admito que foram feitas de forma impulsiva e equivocada. Daí depois abre-se um leque de possibilidades das vidas que eu nunca vou ter, mas que estive perto de viver.

O que teria acontecido caso eu tivesse realmente cursado faculdade de Arquitetura, curso que eu insistia que faria desde os 12 anos de idade?

E se eu tivesse me formado em História? Esse foi o alvo do meu primeiro vestibular. Passei, mas não pude nem começar.

Penso também no caso de eu não ter mudado de escola, durante o colégio, se eu conheceria todos os amigos dos quais hoje convivo quase que diariamente e que fazem parte de minha família.

Na garota da qual tive a infelicidade de avacalhar a vida. Como as coisas estariam caso eu fosse uma pessoa melhor em mais de dez anos atrás?

A verdade é que de todas essas coisas tão poucas realmente me tiraram o sono.

Eu poderia ter gostado mais de desenhar do que de escrever. Eu poderia ter sido o cara romântico que era quando eu tinha 17 anos.

Um passo para o lado que você dá na sua trajetória altera tudo o que você planeja. É como um meteoro dentro de um curso que é alterado por um impacto de qualquer outro corpo vagando no espaço; e por questão de milímetros você acaba se transformando numa outra pessoa.

Têm vezes que imagino que numa dimensão diferente desta, existe um outro “eu” que não sofreu estes desvios e que fez o que eu imaginava fazer nos dias do passado.

Eu penso e penso.

A conclusão que eu chego é que estas pessoas não estariam sentadas aqui agora redigindo este texto. Elas estariam longe de viver o que vivo hoje e fazendo o que faço. Talvez estariam melhores, mas quem sabe piores?

Penso sobre o cigarro que acabo de apagar. E se esse for o cigarro do câncer? E se eu tivesse resolvido parar de fumar antes dele? Mas se ele não é meu singelo torturador que me levará a morte, que mal fez eu sorver todos os tragos dos quais ele me ofereceu?

Eu penso mais um pouco. Penso sobre destino. Insisto em não acreditar.

Penso sobre Deus e tento imaginar o que ele pensa sobre mim caso saiba que existo. Ele deve rir de mim ao mesmo tempo que rio dele. A gente ri junto. A gente bebe junto e depois vamos embora cada um pra sua casa.

É.

No fim das contas me enxergo numa trilha na qual ando e ando e desvio por outros caminhos. Não quero atalhos. Gosto de caminhar. Eu quero os caminhos mais longos.

Penso em pegar a próxima entrada e deixar um outro “eu” para trás.

Desejo-lhe sorte.

Ele me sorri e diz:

– Vai se foder.

A (não tão) Divina Comédia.

Não fazia muito tempo que havia ido parar no inferno.

Estava no setor dos Boêmios.

Sua barriga estava estufada. Os dedos médio e indicador estavam queimados na parte interna. Seu pênis estava em carne viva e ardia ao menor toque, sempre ereto por mais que ele não quisesse. Resultado das cervejas que lhe traziam, dos cigarros que nunca acabavam e das milhares de mulheres que ainda tinha que fornicar. Este era o preço a pagar pela vida que levara no mundo da carne.

Ao contrário do que pensam, ao seu redor não havia labaredas de fogo e lagos borbulhantes. Era na verdade uma cama infinita com várias mesas de bar sobre o colchão cheio de pulgas que se balançavam no ritmo das pessoas que faziam sexo e dos garçons que andavam para cima e para baixo obrigando a todos a beber e fumar.

Ele arrotava cerveja, sentia seus pulmões (já mortos) cheios de fumaça e suas coxas estavam banhadas de sangue que jorrava da parte íntima que não descansava de sexo.

Depois de um longo tempo um ser humanoide que parecia ser feito de ouro apareceu próximo. Espantou as mulheres e recolheu o homem que sorriu de alívio.

– Está arrependido? – questionou o diabrete.

Sem poder falar de tanto cansaço o homem apenas sacudiu freneticamente a cabeça em sinal de positivo.

– Pois bem – falou o ser dourado – Me acompanhe.

Eles deram as mãos e, instantaneamente, estavam em um salão luxuoso com poltronas e muitos retratos de algo que não passava de uma bola de luz.

– Você sabe por que está aqui no inferno?

– Não.

– Está aqui pela vida que levou de bebedeiras e sexo sem casamento.

O homem olhou abismado e disparou:

– Por isso?? Mas eu sempre fui uma pessoa boa!

– É o que diz – respondeu o ser com escárnio, que depois se dirigiu à uma mesa e pegou alguns papéis. Retorceu o nariz e continuou a dizer – Veja aqui. Numa noite só você foi pra Rua Augusta, bebeu nove latas de cerveja e fornicou com uma prostituta.

O rapaz andou para mais próximo do ser que brilhava ouro. Viu que ele segurava fotos dos dias de sua vida e um relatório por escrito de suas atividades naquela noite.

– Olhe bem – disse o homem segurando o pênis que, finalmente, estava molenga e ensanguentado – Sei que não levei uma vida cristã, e na verdade de nenhuma outra vertente religiosa, mas sempre fiz coisas boas sem interesse algum.

O diabrete o encarou e sorriu mostrando seus dentes que eram verdes; feitos de esmeralda.

– Rapaz humano. Os cristãos estavam certos. E acredite, isso também não me agrada, mas as coisas são como são, por isso você sofreu este castigo.

O homem o encarou.

– Eu adotei nove crianças maiores de 13 anos que não tinham futuro, e todas elas hoje são formadas e pessoas de bem.

– Mas você bebia – respondeu o diabrete sem interesse de encarar o homem enquanto analisava os papéis.

– Mas eu também doei mais de vinte mil dólares para instituições de caridade.

– Mas você fornicava – respondeu o ser dourado arrancando com a unha um pedaço de casca de maçã que estava entre os dentes da frente.

– Eu ajudei amigos em dificuldade, nunca roubei um rabanete de feira. Devolvia o troco quando estes eram me dados a mais. Comprei um sítio para cuidar de animais de rua. Fundei uma Cooperativa que dava trabalho digno aos homens pobres. E mesmo não frequentando a igreja, eu doava dinheiro aos cardeais para que pudessem realizar seus trabalhos sociais!

O ser dourado olhou para o homem por cima do ombro direito.

– Você era Ateu, né?

– Sim.

O ser arregalou os olhos e sorriu com os lábios cor-de-ouro apertados.

O homem se sentiu indignado. Olhou para as mãos que seguravam seu membro esfacelado e voltou o olhar ao diabrete e gritou numa mistura de rosnado e palavras:

– EU MORRI POR SALVAR A VIDA DE UMA CRIANÇA DE UM ATROPELAMENTO!

O ser se virou e encarou o homem de frente. Fez uma cara sarcástica e falou lentamente.

– Infelizmente isso aqui é dos cristãos. Não se trata de Yu-Yu Hakusho, onde você salva uma criança do atropelamento e vira um cara à serviço de Deus.

– Então dane-se as coisas boas que fiz?

O ser assinalou positivamente com a cabeça.

– E dane-se eu nunca ter ferido alguém?

O ser assinalou positivamente com a cabeça.

Tudo por que eu era Ateu?

O ser assinalou positivamente com a cabeça mais uma vez e disse:

– E por que bebia e fornicava.

O rapaz balançou a cabeça e indagou:

– E o que estou fazendo aqui, afinal?

– Deus resolveu te perdoar. Você vai para o Céu.

O jovem homem humano não escondeu a alegria em seu rosto. Poderia pular se suas partes baixas não ardessem tanto!

– Que bom que fui perdoado! E me diz. O que existe no Céu? Quais as maravilhas daquele lugar?

O diabrete dourado encarou o homem com certa pena. Aspirou lentamente uma grande quantidade do ar que fedia carniça e enxofre, depois soltou uma lufada pelos lábios semi-serrados.

– Lá existe um grande campo de grama verde, coelhos brancos correndo de lá para cá; pessoas cantando salmos, Anjos tocando arpas… Você vai ficar lá, sentado vendo tudo aquilo pela eternidade, conversando sobre Deus e seus mandamentos. As pessoas dirão que lá é um lugar feliz, e é isso o que você vai fazer pelo resto de sua eternidade.

O homem olhou para os lados e seu sorriso afrouxou. Ele olhou para cima e depois para seu pênis em carne-viva. Levantou a cabeça e encarou o diabrete. Uma lágrima escorreu de um de seus olhos.

– Nada das virgens de Alá?

– Na-di-nha – respondeu o diabrete pausadamente no que quase foi um sussurro.

– Nada de Valhalla com banquetes e bebedeiras enquanto aguardamos o Ragnarök?

O ser negativou balançando a cabeça dando dois estalos com a língua no céu da boca – Apenas grama e Coelhos.

O homem olhou novamente para seu pênis carcomido e depois para o diabrete e disse:

– Você pode me ceder uma almofada?

– Pra…?

– O colchão aqui no inferno está me deixando com uma maldita dor no pescoço. Só me arruma uma almofada. Nem precisa me levar lá de volta. Eu mesmo acho o caminho. Só me arruma a merda da almofada, repelente pras pulgas  e a porra de um K.Y.

A reza do grito.

Ainda que eu pondere meu espírito e tente saciar sua fúria, algo dentro de mim ainda diz que quero gritar.

Não gritar para falar mais alto. Não gritar para assustar. Mas gritar para escarnecer meu adversário.

Quando sou atacado me transformo num monstro. E este monstro não meça palavras baixas e nem altas. O objetivo é causar a dor e levar ao inferno.

Quando grito não sou mais eu; não sou mais você, não sou mais ninguém e nem sou quem eu sou no momento.

Quando berro sou apenas um demônio se debatendo para atingir e sentir cheiro do sangue.

Ainda que eu pondere meu espírito e tente alimentar a calma dentro de mim, quando gritam comigo para sentirem o cheiro de meu sangue, apenas me resta gritar mais alto.

Ainda que eu pondere meu espírito, antes o sangue deles do que o meu.

Ainda que eu pondere meu grito, que este seja mais forte do que o deles.

Amém.

E quando eu chegar em casa.

Acompanhei Larissa até a Estação Paraíso do metrô onde ela deveria encontrar sua namorada. Nos despedimos e ela saiu do vagão. Por lá fiquei seguindo meu caminho olhando os velhos com suas caras esbranquiçadas e enrugadas sentados cada um em seu banco com feições de quem parece pensar em acontecimentos de mais de vinte anos atrás. Ainda no mesmo vagão os jovens animados por acabarem de sair de suas faculdades. Seus rostos enrubescidos e felizes. A infinita promessa de um futuro cheio de alegrias; eles nem notavam que seus futuros estavam bem alí, no mesmo vagão. Cada qual num banco de aposentados tendo devaneios de um passado que um dia foi cheio de promessas.

Eu também devaneava, ainda que de pé com os outros jovens. Eu estava no limiar. Eu me encontrava entre o ânimo e o pensamento apático. Eu estava já no meio de minha história. Um conto cheio de alegrias e tristezas. Eu estava na página cinquenta de um livro de cento e vinte páginas. Eu estava quase na metade da história de minha vida.

Desci na estação Praça da Sé e subi as escadas para fazer a baldeação em direção a linha vermelha. Com sorte chegaria em casa antes das onze e meia da noite. Caminhava pensando no casamento do qual fui padrinho dias atrás. Imaginava se veria novamente cada pessoa que estava naquela festa. Lembrei da cerveja, lembrei da valsa; das fotos; dos carros; do glamour, da gravata torta e do tempo frio daquele dia festivo. Depois pensei que deveria ter feito as tarefas da matéria de inglês. Eu detestava esta matéria. Então pensei nas razões do universo e se realmente existia um Deus orquestrando tudo o que me rodeava.

A porta do vagão abriu e entrei. Com certeza conseguiria chegar mais cedo em casa. Quinze minutos que fosse. Isso já seria um sucesso. Uma lata de cerveja a mais antes de dormir. Quem sabe uma dose de vodca.

Ali na linha vermelha, a mesma cena de velhos sentados e jovens de pé. Um casal de negros se beijava gentilmente, sem alarde. E eu sorri com aquilo. As mãos deles tremiam agarradas uma na outra. Mochilas nas costas. Certamente estavam juntos fazia pouco tempo. Ela se despediu dele na estação Belém e ele permaneceu no vagão. Depois de ela ter saído, o sorriso permaneceu no rosto do rapaz. Sorri novamente: “Aproveitem as promessas da vida”.

Daí então eu a vi. Sentada entre os velhos. O rosto úmido e olhos encharcados. A ponta do nariz vermelha de tanto chorar. Acho incrível como a tristeza chama mais atenção do que a felicidade. Nossos cérebros são programados para perceber a tristeza.

Fiquei imaginando o que aquela garota tinha. Não devia passar dos vinte anos. O que aconteceu que a entristeceu ao ponto de sentar-se ao lado dos velhos enquanto os jovens de pé sorriam?

Seria o fim de um namoro? Uma nota fraca em alguma prova, quem sabe? Talvez a morte de um ente querido,   ou os sapatos que apertavam seus pés.

Pensei em inúmeras possibilidades e passei a observá-la mergulhado, junto dela, em sua tristeza, mas sem saber a profundidade daquele lago.

Daí então nossos olhares se cruzaram.

Saí daquele lago em que havia mergulhado e voltei para o meu livro que segurava em minhas mãos, mas não consegui mais ler. Meu corpo estava ensopado por aquela água. Eu olhava as letras na página fixamente sem sair da mesma linha; tentava apenas disfarçar que estive ali mergulhado dentro do lago que pertencia a ela. Pude perceber que ela parou de me olhar para voltar a chorar enquanto os velhos sentados ainda pensavam e os jovens de pé ainda sorriam. Respirei fundo e pensei em me sentar também. Mas a voz robótica ecoou no vagão anunciando a estação Patriarca.

Caminhei saindo do vagão. Desci as escadas rolantes. Peguei a condução para minha casa.

Ao chegar em casa ainda pensava na garota triste e no que poderia ter acontecido à ela.

Joguei a mochila para o lado. Respirei fundo e, finalmente, me sentei. Não sentia tristeza e nem alegria. Eu estava na página cinquenta de um livro de cento e vinte páginas.

Ainda era onze e quinze da noite.

Peguei duas latas de cerveja e uma dose de vodca.

Imaginei que seria melhor que eu nunca precisasse sentar num dos bancos do metrô. Eu deveria me manter jovem para sempre de forma que nem a tristeza me colocaria pra sentar.

Bebi a vodca e depois fui deitar.

Depositem suas letras em vossas cavidades retais.

Às vezes penso eu que é bem melhor estar fora das Letras, ainda que, por ventura, eu ainda insista em me tornar uma pessoa letrada, como no atual momento em que voltei a estudar.

Ainda que eu tenha feito estas matérias do primeiro ano, para mim lá tudo é sempre uma novidade, uma perspectiva diferente do que já me disseram. Aproveito e degusto. Estar estudando com um corpo docente diferente te dá muito mais opções do que absorver para a mente. Eu não respondo as perguntas que os professores lançam na sala, ainda que, de algumas delas, eu saiba a resposta. Fora timidez, a insegurança do que eu acho que eu já sei. Acho que nunca saberei.

Mas existem pessoas das quais ando convivendo em sala de aula que simplesmente me irritam!

Por que Letras é tão cheia de pseudo-cultos?

Pessoas que buscam, pela linguagem, desprezar os menos letrados; pois, afinal, todos que sabem escrever são, de certa forma, letrados. Quando a pompa do “pessoal de Letras” vai cair? Quando será que poderemos parecer mais com professores de História que possuem vasta sabedoria e uma humildade fascinante?

A tal da Andressa Urach lançou um livro que vende feito água. Isso foi um estopim dentro da sala de aula! “Aquela coisa”, diziam eles em protesto: “Lança um livro… As pessoas comem lixos escritos”.

Mas poxa vida… Qual a razão de pensarmos assim?

Ok. Eu nunca leria aquele livro, mas que mal tem as pessoas lerem? Vai me dizer agora que a humanidade inteira deveria ler Machado de Assis? Deveriam ler obras clássicas como “O Retrato de Dorian Gray”? Que deveriam regurgitar amores lendo os Lusíadas?

Pro inferno!

Essa gente se masturbava com as fotos de Andressa Urach antes de ela se tornar uma pessoa de família e levantar cartazes em prol da Família Brasileira.

Pro inferno vocês e pro inferno a bunda dela. Gozei o que tinha que gozar. Andressa e eu seguimos caminhos diferentes e nos deixamos em paz! Deixem-na escrever. Ela vende. Eu não. E nem você aí no primeiro ano de Letras vende. Então vai você pro inferno também!

Ah, claro! Não podia faltar o Paulo Coelho.

Não entendo essa cisma com o cara.

Os professores dizem que é ruim… Eu devo dizer?

Para alguns, sim!

O que me agasta é que estas pessoas que se mostram tão fodas, provavelmente leram mais obras clássicas do que eu, mas nem notaram que o professor, em sua vasta sabedoria, não escreveu inteiro a “Cantiga da Ribeirinha”. Pois é. Aí vem falar que alguns escritores não deveriam existir.

Até entendo. A gente se mata pra escrever ou lecionar, e uma pessoa faz uma obra ruim que vende muito. Mas isso seria como eu pintar um quadro, coisa que gosto de fazer, mas faço mal, e não vender quando alguém me fizer uma oferta milionária… Imagina?

  • Vende esse quadro feio pra mim por quinze milhões.
  • Não. Não venderei. Pois é uma obra de arte ruim essa que eu fiz.

Fala sério!

Esse rei na barriga dos Letrados me deixa encoleirado em minha raiva, enjoado e enojado daqueles que, por incrível que pareça, gostam das mesmas coisas que eu.

Esses cultos… Eles me fazem rir de raiva. Mas uma hora eu crio coragem de falar-lhes umas boas verdades, afinal, meu pau é maior que o deles! E me sentirei orgulhoso quando me mandarem pro inferno também.

In Memoriam

Cada um é dono de si. Como dizem: Meu corpo, minha vida, minhas regras. Mas até quando isso pode ser verdade?

Nunca sabemos da dor daquele que tem tal atitude, mas os que ficam, sabem da dor dos amigos e parentes daquele que se vai, numa atitude completamente egoísta (não adianta falar, porque é) e, quiçá, muito corajosa.

Para tirar a própria vida uma pessoa deve renunciar à todos os instintos primitivos que os humanos carregam desde seus ancestrais. É como ir contra si mesmo enquanto sua biologia diz completamente o contrário.

Quando a depressão alcança uma pessoa, essa atitude fica mais fácil. Não dá pra julgar. É uma doença. A depressão pode ser comparada a máxima de se estar preso no décimo sexto andar de um prédio em chamas. O fogo chega perto e o que te sobra é a janela. Você sabe que não vai viver, mas sabe que não existe alternativa senão aquela. Daí você pula sabendo que vai morrer. Mas morrer espatifado é, aparentemente, melhor do que ser inteiramente queimado.

Mas a depressão pode ser contornada com ajuda, mas nem sempre a pessoa vítima dessa doença procura ajuda. Algumas nem sabem o que está acontecendo, e aquele amargor no peito aumenta. Queima. Aí já era.

Lembro de como ele era completamente maluco, apesar de ser ótima pessoa. Prestativo e sorridente. Sofrido, até, mas sorridente. Com tantas responsabilidades acabou sumindo… Pouco contato. Era visível, pela vida que levava, que isso poderia acontecer; mas eu não achava que seria uma morte proposital… Eu nem imaginava a morte, na verdade… Imaginava um cara bem louco na esquina de uma rua dormindo. Fica o exemplo.

Quando pensamos em suicídio, nunca imaginamos isso próximo a nós. E a sensação é completamente estranha. Diferente de qualquer outra morte que eu já experimentei. Não tive vontade de chorar. Não teve raiva. Não teve nada. É uma apatia.

Mas vem a pergunta: Por quê?

Eu não vou entender. Seus irmãos, menos ainda. Seus filhos, sua mulher… Cara… Que merda você fez?

Escrevo isso sem lágrimas. Na verdade ensaiei isso e nem tive vontade de escrever, mas o fiz… Não sei se isso é merecido. Não sei nem se lhe faltava razões. Isso é o pior… Só fica a pergunta tilintando… Por que, cara? Por quê?

Tudo o que você fez me causou um pensamento. Antes eu dizia que a gente vê que está ficando velho quando as festas em que vamos têm mais crianças do que adultos. Quando a maioria dos nossos amigos estão casados… Mas não. Isso não e verdade. A gente nota que está ficando velho quando carregamos o caixão de uma pessoa que um dia chamamos de amigo… De uma pessoa que AINDA é um amigo. Não foi bonito… Não foi. Você pesava. Pesava mais do que quando carregávamos de cavalinho nas costas.

Mas está tudo bem. Isso acabou para todos. Espero que realmente você tenha feito esta escolha com certeza. Se fez, estaremos bem. Se não… Aí eu lamento pela escolha mal feita.

Vou me lembrar de você e sua bicicleta. Vou me lembrar das bebedeiras, dos cigarros… Vou me lembrar do quanto você amava, junto ao Davison, declamar o começo da música “Number of The Beast” do Iron Maiden… Vocês eram sincronizados fazendo isso.

Vou me lembrar do quanto você falava do antigo Kazebre, aquele que sempre morria um por semana. Vou me lembrar dos planos de nossa banda em que você era o baterista, e que nunca soube tocar. E vou me lembrar de que você, um dia, foi o mais velho da turma, e por isso seguíamos tudo o que você dizia.

Apesar da distância de ultimamente, distância essa que eu achei que seria vencida, como sempre era quando nos víamos, mas que falhou dessa última vez, tenho que dizer que te amo. Tenho que pedir para que fique em paz, seja lá como for deste lado.

Você me fez lembrar o Clodoaldo. Me fez imaginar que agora o velho Clô vai ter alguém pra falar bobagens por aí!

Beba por mim… BEBAM por mim!

Em breve Davison, eu e todos os outros estaremos chegando. Mas que demore. Ao contrário de você, eu não adiantarei a passagem.

Fica em paz, meu amigo! E para de fazer bobagens.

In Memorian: Luciano Lima de Souza – O Eterno Bigode do Leôncio.

Se nada der certo, passa pro pós!

– Você não se enjoa desse trabalho? – perguntou o ser com o capuz negro escondendo o rosto – Todos os dias a mesma coisa e é sempre a mesma porcaria de trabalho! Sempre tendo que vir aqui e pegar esses fodidos pra levar pra descansar.

O outro rapaz, do outro lado da maca onde havia um homem cadavérico, apenas respirou fundo, mexeu em seus cabelos longos e brancos feito neve pura e, depois, coçou a longa barba.

– Todos os dias eu estou cansado, e entendo o quão você também está cansado, mas alguém precisa fazer isso.

Ambos olharam para o homem deitado. Ficaram em silêncio até que o aparelho que vigiava a vida do moribundo apitou um som contínuo. O coração havia parado.

– Vou levá-lo – disse o ser de capuz preto se levantando da cadeira enquanto o homem que estava na maca começou a se levantar como quem está perdido.

– Leve-o – disse o anjo coçando agora a asa esquerda – Dá um alívio pra ele. Ninguém merece morrer de câncer.

– Não mesmo – respondeu a morte olhando para o humano perdido sentado na maca observando o próprio corpo ainda deitado e pálido.

O anjo se levantou e bateu as asas, depois coçou a virilha, o que fez a morte se incomodar.

– Porque se coça tanto?

– Pulgas, acho.

–  Pulgas são terríveis mesmo – disse a morte rindo fazendo seus dentes baterem.

–  Pois bem – disse o anjo – Quarto seis finalizado!

– Seis? – Questionou a morte com incerteza – Achava que era o nove.

– Aqui nos prontuários. Quarto seis. Câncer.

A morte revirou seus papeis.

– Quarto nove; câcer.

O anjo coçou as costas, depois a nuca e depois a barba. Olhou para a alma do morimbundo e perguntou:

– Qual era sua chaga?

– Gripe forte -respondeu o homem.

A morte riu com o barulho seco de dentes se batendo. O anjo coçou sua asa direita e depois coçou os lábios.

– Que a gente faz agora, morte?

– Deixa o cara do câncer viver e levamos o gripado, paciência! Qualquer coisa se perguntarem, diga-lhes que fomos proativos. E toda pró-atividade leva à um erro às vezes. Paciência.

O anjo pensou, pensou e pensou.

– Ótimo! Levamos então o gripado e deixamos o cara do câncer! Você que é do operacional que se resolva depois.

O anjo carimbou a autorização da morte e entregou os papéis. A morte olhou para o formulário e depois para o anjo.

– Vocês só me fodem…

A morte então levou o rapaz. Disse que foi um erro tê-lo levado por uma gripe. Foi apenas um erro do setor comercial, mas que os benefícios de estar morto eram muitos.

Ao chegarem no inferno, o rapaz questionou sobre a péssima qualidade de vida.

– Não foi o que eu esperava – disse o homem.

– Você não gostou?

– Não.

A morte então olhou para os lados e apontou um homem com um bigode curto e roupa de militar.

– Vê aquele moço uniformizado, com aquela tira vermelha na manga?

– Sim.

– Ele faz o pós atendimento. Infelizmente eu sou do operacional. Resolva agora suas dúvidas com ele. Até mais ver!

O Doce fazer nada…

Já tive momentos, entre 2010 e 2011, em que meu blog tinha tantos acessos que eu cheguei a achar que até ganharia uma grana. Mas a preguiça em manter um funcionamento adequado e postagens com períodos fixos, aquela coisa de compromisso, foi maior que qualquer coisa, afinal, tudo o que escrevo vem da vontade de dissertar sobre algo ou da ideia de uma história pra mostrar.

Pois bem.

As visualizações caíram drasticamente e, hoje, apenas quem conhece o blog aparece por aqui, ou alguns acidentes (Como a Ju do RJ.) acabam lendo o que escrevo e acabam ficando mais um pouco para um chá.

Hoje os acessos não se comparam com o que foram um dia, mas acho até legal. Mais liberdade pra escrever sem medo de ofender ou errar uma palavra.

Este blog representa muito pra mim. Por mais que eu passe tanto tempo sem escrever e não seja regrado, nunca vou deixar de escrever algo. Pelo menos uma vez por ano alguma coisa vai ter aqui, e isso é certeza. E foi por isso que, finalmente, tatuei no corpo “DOLCE FAR NIENTE”… Sim… Com “O”, que seria a grafia correta da frase italiana que significa “Doce fazer nada”. Uma expressão usada para simbolizar o ócio.

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Pensei em escrever com o “U” que é errado e é como o blog está escrito, mas achei que seria uma correção tatuar direito até pelo significado pessoal que esta frase tem pra minha pessoa.

Pois bem. Tatuei. Mais uma tatuagem significativa em meu corpo. Agora tenho três tatuagens significativas. A terceira seria uma homenagem ao meu escritor favorito que nem preciso citar o nome… Mas daí falo dele num próximo post.

Beijos e abraços!

FELIZ ANIVERSÁRIO, DULCE FAR NIENTE!

Hoje, dia 25 de julho, o Dulce faz sete anos de idade. Sete anos de textos melodramáticos, barulhentos e cínicos.

Parabéns, meu blog que, curiosamente, faz aniversário no dia do escritor!!! E eu nem sabia, na época, que tinha dia do escritor!!!

E se eu posto em você com menos frequência do que anos atrás, é porque agora você já é um mocinho!!!!

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Ósculos e amplexos pra você!!!