Vai chover pedra, hoje.

É. Vai chover pedra.

 

Não coloco uma linha aqui desde 2016…

No início deste ano comecei a dar uma olhada neste blog; mudei uma coisa aqui, uma outra ali, e depois pensei: “Ok… Quero retomar o blog, escrever algumas coisas, mas será que devo ainda impulsionar este ou, de repente, criar um novo? Afinal, quantas ideias aqui escritas já perderam a validade e quantas outras mais precisam de um bocado de revisão por estarem muito, mas muito mal escritas?”.

 

A verdade é que ainda nem decidi, mas existe uma inclinação de minha parte a permanecer nesse espaço aqui que, apesar de uns tempos de inatividade, já tem onze aninhos, 577 textos publicados, 117.636 visualizações, 16.791 visitantes diferentes e por aí vai, sendo seu ápice durante os anos de 2010 e 2011, quando eu atualizava o Dulce quase todo santo dia.

 

Mas tantas coisas mudaram desde o meu último texto “Sobre abraçar árvores” (2016) até os dias de hoje. Coisas em mim que mudaram, coisas externas que mudaram. A vida deu uma girada, a sociedade mudou. Os carros mudaram!! Temos o Tesla, hoje! Quem diria? Ah… A verdade é que se nos anos anteriores eu sabia exatamente pra quem eu escrevia, hoje eu já não tenho essa certeza. O que as pessoas que apareciam  por aqui andam lendo hoje? Quais opiniões elas formaram? Que tipo de seres humanos elas se tornaram?

Não sei…

Mas acho que vou descobrir…

Logo mais eu volto com novidades. Já tenho umas ideias para falar aqui.

Acho que é isso.

Beijos e abraços.

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SOBRE ABRAÇAR ÁRVORES.

Existe hoje uma atmosfera pesada na sociedade, não sei se só apenas os brasileiros sofrem com isso, mas imagino que não. Pessoas com mais fundamentos e mais estudos do que eu poderiam me tirar esse tipo de dúvida. Mas neste Natal morreu um homem. Um homem chamado Luiz Carlos Ruas; atacado brutalmente ao defender um homossexual.

Isso me faz pensar se a “família brasileira” apoia essa atitude.

Vamos manter os bons costumes!

Quando penso nesse texto ultrapassado de manter os bons costumes, de que a clássica família brasileira está em ruínas e que a causa disso são as minorias, como homossexuais, negros, nordestinos (Nordestinos minoria??? Sei não!), e por aí vai, me dá uma vontade imensa de abraçar uma árvore.

Alguns de vocês vão dizer: “Apoiamos a moral e os bons costumes, mas não a violência”. Mas a partir do momento em que plantamos a semente de que tudo o que, AO NOSSO VER,  é errado e prejudicial, e deve ser combatido com força, me desculpem, mas sim! Estamos semeando essa violência na sociedade!

Não existe como você criar uma família sem ensinar teus filhos a aceitarem as diferenças! Quando você impõe a regra de que quer viver dentro de uma bolha, recusar os desfavorecidos e mostrar aos teus que tudo ao seu redor é lindo e que se foda o resto, você está ceifando a vida de mais um Luiz Carlos Ruas.

“Mas você não tem filhos, não sabe o que é criar uma família aos 33 anos de idade”.

Tem razão! Mas a causa disso é porque eu quero fazer isso muito bem feito, e SE fizer!

Não quero colocar nada no mundo que um dia possa causar mal a alguém! Então preciso aprender e crescer como gente de verdade pra poder colocar pessoas nesse mundo.

Até lá ainda irei abraçar uma árvore e explicar para as pessoas que o cachorro alheio, que um pé de chuchu, que o morador de rua, homossexual, heterossexual, o de esquerda, o de direita, as variadas cores de pele e, não menos importante, pessoas do Sul ao Norte, são todos importantes uns para os outros! Criar bolhas isoladas é como dar origem à uma célula cancerígena.

É hora de todos nos unirmos e dar um jeito nisso. Isso é uma questão humanitária, não só de política!

Eu não entendo a dificuldade nisso, e isso me deixa puto! Me deixa puto essa sociedade que gosta de se foder! Me deixa puto ver Luizes, Marias, Paulos, Amandas, Josés e Rafaelas serem mortos todos os dias por coisas banais e por intolerância.

Chega, gente…

Vamos ensinar que podemos ser melhores do que isso. Que apreciar o cão de um transeunte alheio faz parte de admirar o mundo em que vivemos e que, se fossemos uma raça inteligente mesmo, como gostamos de dizer, trataríamos toda a natureza e os seres que nela vivem como uma única e grande família. Um não vive sem o outro.

Abrace uma árvore, abrace um desconhecido e abrace carinhosamente tudo o que vê pela frente.

Só assim pode haver a verdadeira harmonia.

E QUE EM 2017 TODOS ACORDEM PARA A REALIDADE.

O pacífico povo brasileiro.

Foi difícil abrir os olhos com a luz do Sol forte do jeito que estava. Esfreguei a testa e levantei aos poucos. O lençol amarronzado estava bagunçado na calçada. Olhei a guia e dei um gole da água que por ela passava!

Era uma linda manhã.

Os moradores das calçadas vizinhas, assim como eu, já começavam a despertar. Seria um ótimo dia para caçar pombos e ratos. Fredie, meu cão vira-latas, havia cagado dentro da calçada. Claro que Daiane, minha mulher, ficou muito puta com a situação… Quantas vezes já dissemos para que Fredie não cagasse dentro da calçada! Mas ele não aprendia a fazer suas necessidades na rua, ele tinha mesmo é que defecar dentro de nossa calçada.

Enquanto eu espancava o cão, o homem que tomou minha casa saiu. Me apoiou pela atitude enérgica e em seguida cobrou o aluguel da minha calçada que agora era dele. Paguei, claro, pois ele me tratava muito bem desde que havia invadido meu lar.

Era uma linda manhã.

Todos os moradores das calçadas de minha rua saíram para caçar, mas não eu. Naquele dia decidi ficar com minha esposa, pois ainda tínhamos quatro baratas desidratadas, uma cebola que o homem rico que roubou minha casa havia dado no dia anterior (que homem bom é ele), e dois pedaços de bolo que a Igreja nos deu no dia de Santo Antonio. Estávamos fartos de alimento naquele dia, e fora que, de qualquer forma, se faltasse comida poderíamos matar Fredie, nosso fiel cão, e comer a carne dele.

Foi uma linda manhã até que a tarde passou e o pôr-do-sol se aninhou.

Os homens ricos que haviam roubado nossas casas por todo bairro, cidade, estado e país retornaram de seus trabalhos, nos deram boa noite e entraram para dentro de nossas que agora eram suas casas.

Retribuímos o boa noite e ficamos felizes por eles terem lembrado da gente que morava ali em suas, nossas, calçadas.

Estávamos felizes com nossa situação. Ainda havia uma calçada para morar.

Aquele foi um lindo dia.

Daiane estendeu o lençol sujo na calçada. Dormimos.

Acordei com os latidos de Fredie no meio da madrugada. Aquele maldito cão havia acabado de morder o homem rico que havia tomado minha casa. O homem rico só estava tentando pegar, embaixo do paralelepípedo que me servia de travesseiro, a carteira com o pouco de dinheiro que restava dentro dela.

Fiquei furioso.

Chutei o Fredie. “Cachorro mau” eu repetia. Entreguei a carteira para o homem rico que sorriu e bateu a mão em meu ombro antes de entrar para minha casa que agora era dele.

Minha esposa bufou.

“Amanhã damos um jeito nele”, eu disse.

“Espero que sim”, ela respondeu.

E eu sabia que a manhã seguinte também seria linda.

Mataríamos Fredie e teríamos um ótimo ensopado de cachorro mal educado.

Quando teus deuses…

Entenda que
Todos os dias quando você acorda
Teus deuses dizem o que fazer

Eles dizem:
Faça desse jeito, assim
Assim que gosto de ver

Entenda que
Quando você deita na cama
Você ora para seus deuses

Eles dizem:
Se fizer o que mando
Te perdoarei várias vezes

Tente se entender
Descubra-se
Não se frustre
Mande teus deuses à merda

“Amai-vos uns aos outros”

Quando teus deuses não lhe aceitarei assim
Algo há de errado em você
Ame por amar
Mas não por desejar

PELE FINA

Acordou quando era cedo. Geralmente acontecia isso. Cinco ou seis horas da manhã já estava de pé. Não que ele queria aquilo, mas passar muito tempo deitado na cama lhe causava dor-de-cabeça, e ainda por cima tinha seus remédios para tomar. Remédios dos quais nunca mais estaria livre até que a morte o agarrasse pelo tornozelo.

Fez seus próprios ovos mexidos, alimentou o gato, procrastinou juntar o lixo da cozinha e abriu um pouco da cortina para deixar a luz do Sol, que já nascia, entrar um pouco para dentro da sala que cheirava a mofo. Não gostava de deixar muita luz entrar, reclamava sempre à Michel, seu filho, que seus olhos já não se davam muito bem com a luz do dia e nem com qualquer outra. Michel sempre reclamava, mas, por outro lado, nem sempre estava lá para ver a rotina do pai.

Quando colocou o gato para fora de casa naquela manhã sentou-se na poltrona e pensou em ler um livro, mas tinha medo de acabar pegando no sono, então preferiu não ler nada. Colocou uma música baixa para ouvir. Qualquer música que não ultrapassasse o limite de seus tímpanos que já não funcionavam tão bem. E essa era sua rotina desde que Margarida se fora. Já tinha três anos desde que ele e seus três filhos, Michel, o mais velho, Berenice, a do meio e Rafael, o mais jovem, enterraram-na numa cerimônia apática e quase sem emoção que pudessem demonstrar.

Miguel nunca mais quis conhecer outras pessoas depois que sua esposa faleceu, e sua vida permanecia assim, como uma festa sem graça e sem convidados.

Encheu-se de ficar sentado na poltrona, encheu-se da música de sempre e se encheu das mesmas coisas que se enchia todos os dias, e sabia que no dia seguinte seria a mesma coisa. Caminhou até o banheiro e olhou-se no espelho.

Os pelos no rosto feito espinhos brancos, dos quais havia tirado a três dias atrás, já lixavam a palma da mão na caricia que fez a si mesmo. Sentiu as ondas da idade que sua pele produzia. Tentou sorrir para si mesmo, mas logo desistiu quando viu as rugas lhe darem uma aparência quase demoníaca. Miguel estava velho demais para sorrir, mas sabia que se chorasse o resultado seria ainda pior.

Chorar era algo que costumava fazer apenas quando se deitava após o jornal da TV para dormir. Chorava em silêncio. No escuro não poderia ver a monstruosidade de suas rugas, ainda que soubesse que estariam lá, para sempre, até o resto de sua vida, ou o que restava dela.

Queria raspar os pelos de sua face, mas teve preguiça, assim como de ir ao barbeiro na esquina de sua casa para cortar o cabelo amarelado que caia liso em sua testa.

Miguel não tinha amigos, era rabugento demais para frequentar o grupo da terceira idade. O mais próximo que tinha de ser um amigo era Félix, seu gato, cujo qual Margarida, numa manhã feliz de sábado, insistiu em adotar contra sua vontade.

Agora o gato também estava velho e sua esposa estava morta perdida em ossos cuja pele não resistiu em agrupar. Tirando o gato, seu filho Michel era o único de sua prole que ainda parecia se importar, mas ainda assim não chegava aos pés do gato Félix.

Sentou novamente na poltrona e teve a impressão de alguém tocar a campainha. Foi até a fresta formada pela cortina semi-aberta e ficou feliz de não ver ninguém no portão. Foi o primeiro sinal de alegria sentida no dia. Ninguém para incomodar, ninguém para falar. Aquele dia seria como ele gostava que fosse. Solitário com as rugas de sua fina pele, sem ter nada para fazer e sem ter que ouvir vozes. Ficaria ali sentado com as lembranças de Margarida. Levantaria ali apenas para abrir a porta quando seu melhor amigo voltasse novamente para casa. Felix miaria do lado de fora e ele abriria a porta. Então fariam o jantar, veriam o jornal da TV e iriam dormir.

Mas sua pele fina se arrepiava com a ideia de que Félix já era um gato velho e, assim, poderia não voltar. Daí então não haveria mais pelos soltos pela casa, não haveria mais arranhões e nem sequer quem mais alimentar pela manhã. Na verdade o gato nem desejava sair toda vez que o velho o colocava para fora, mas…

…Essa era a emoção de Miguel.

Aguardar os sinais da morte.

Retratos Falados.

Ele estava sentado em sua poltrona. Estava casado a apenas dois meses, mas o namoro já estava engatado a mais de dois anos. Deixou tudo o que deveria fazer por amor, agora só lhe restava a programação da Netflix e suas cervejas.

Ela estava na cozinha. Seu horário confuso do trabalho, muitas ambições e poucos planos. Era isso o que fazia dela uma mulher da casa. O que restava a ela era provar para seus pais que se sentia feliz.

Estavam enjoados um do outro. Mal se viam em tão pouco tempo de casados.

Mas um dia ele na poltrona, e ela na cozinha, resolveram sair de seus lugares e irem para o quarto escolher uma roupa para depois do banho, então acabaram se cruzando.

Se olharam… Se estranharam. Quase que não sabiam da existência um do outro ali. Ficaram paralisados se encarando.

No criado-mudo não havia uma foto dos dois juntos. Até nas fotos eram separados. Um porta-retratos para cada um era o que havia.

Ele na foto fez cara de emburrado enquanto ela, dentro de sua moldura de madeira, pareceu indiferente; mas ambos, cada um em sua fotografia, encararam sua realidade ali no quarto olhando um para o outro.

Ele, de sua fotografia, olhou a moldura ao seu lado onde ela se encontrava.

– Tá vendo o que você fez? Agora estamos aqui, um de frente para o outro e nem nos reconhecemos.

Ela, de sua fotografia, olhou para a imagem dele ao lado e respondeu:

– Calma. Eles vão se entender.

– Acha mesmo?

– Não. Não acho. Estou sendo otimista. Ao menos se você não bebesse tanto e não fosse tão vagabundo, não estaríamos separados por estas duas molduras.

Ele, de sua fotografia, bufou.

– Olha aqui! Foi você quem destruiu tudo isso! Talvez, eles que estão no quarto agora, se reconhecessem caso você fosse mais tolerante com as ideias dele… As minhas!

Os dois de pé no quarto se aproximaram.

Ela, de sua foto, exclamou:

– Veja! Algo está acontecendo ali!

Os dois de pé no quarto se distanciaram em seguida do avanço, e voltaram a se estranhar.

– Eu – disse o rapaz da fotografia – Como retrato dele, não quero que ele se aproxime da dona de sua fotografia. Eles não nasceram um para o outro, veja!

A moça na foto pareceu pensar.

– Se você tivesse estudado mais antes de virar essa foto, talvez eles estivessem felizes agora, e nós dois aqui, assistindo eles dois, pudéssemos ser uma “selfie”..

A fotografia dele riu daquilo.

– Se você tivesse mais tempo e mais amor, ao invés de uma “selfie”, poderíamos ter pedido para o rapaz que vende balões no parque tirar uma foto de nós dois juntos, daí então economizaríamos nessas moldagens de madeira, e eu estaria aí, junto de você dentro da mesma fotografia.

Ela pareceu pensar um instante. Olhou para os lados e observou os retratos na criado-mudo; imóveis… Inertes.

– Quase não te reconheci – disse ela.

Ele sorriu.

– É… Eu não sabia que estava aqui em casa. Faz tempo que não lhe vejo.

– Você só pensa em escrever, beber e fazer arte – ela falou.

– E você só pensa em estudar, ficar sóbria e cuidar do que não lhe diz respeito – disse ele.

– Você é um acomodado.

– Você é uma mal agradecida.

Das duas molduras eles se olharam vendo a discussão deles mesmos naquele quarto enquanto as folhas de outono caiam no quintal.

– Será que nós… ELES… teriam sido mais felizes dentro de uma moldura? – ela questionou.

Ele pensou dentro de seu retrato. Encarou o casal discutindo ali. Imaginou viver aquilo sem ser um simples retrato, uma parte travada no tempo que, se rasgado, todos esqueceriam.

– Eles estão dentro de uma moldura, mas para nós, que somos retratos separados por estas pequenas tiras de madeira é impossível de ser ver o que acontece.

Ela sorriu em seu retrato.

Ele retomou sua pose e engoliu as ofensas.

Ela, antes de retomar sua pose, respirou aliviada por não estar na mesma moldura.

 

Fizeram as malas após a discussão.

Resolveram que era melhor cada um ficar em seu porta-retrato.

Até mais!

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Neste sábado eu discutia com um amigo, Wilder, sobre o novo álbum de David Bowie lançado na sexta-feira, dia 08. Dia de seu aniversário.

Como todo artista já na terceira idade, falamos sobre a duração dele antes de partir em sua nave para outro planeta, um melhor que este… Eu afirmei que ele duraria mais uns dez anos conosco; mero engano este meu. Acordei nesta segunda-feira e, a primeira coisa que li, ainda deitado na cama, foi a mensagem de um amigo dizendo que Ziggy Stardust havia vindo buscar David Bowie para levá-lo ao lugar do qual ele sempre pertenceu: Um lugar mais bonito onde as pessoas são sensíveis ao seu nível.

Estas notícias são estranhas, pois elas vão golpeando você lentamente ao decorrer do dia, e quando a noite cai, você está praticamente em frangalhos sem entender nada sobre como o mundo funciona.

Se nos anos 80 e 90 nossos ídolos morriam pelas consequências da AIDS, hoje parece que o mal do século é o Câncer.

É triste.

Mas quanto empenho havia nesse tal de David Bowie (David Robert Jones). Gravar um álbum de despedida, filmar dois clipes para então, dois dias depois, partir. E é incrível como ele fez e planejou tudo. Realmente ele sabia o que o esperava. Este último álbum dele me lembra até Renato Russo com seu triste “A Tempestade”.

Não. Ele não era meu artista favorito, mas era um dos que eu tinha carinho demasiado. Era uma lenda; um dos poucos heróis ainda na Terra. Alguém do qual eu queria ter ido ver um Show.

Freddie Mercury é quem deve estar feliz agora. Vai haver show nos céus nesta noite e na seguinte e na seguinte e para sempre!

Aqui eu deixo os sentimentos para os fãs mais assíduos do que eu, principalmente para a amiga Nana, que deve estar bem triste, tamanha admiração que tinha por Bowie. Força!

Bowie agora está viajando pelas estrelas junto de Freddie e de Ziggy.

Tão logo estaremos todos com eles!

E não pensem que nossos heróis estão morrendo, eles só estão preparando o terreno pra quando a gente chegar lá. Vai ter shows bacanas pra cacete pra ver no dia em que eu morrer! Vai ser uma festa!!!!

 

David Bowie, ósculos e amplexos pra você! E obrigado por tudo.

Os pássaros.

Quando um “Ah” não vem seguido de uma exclamação, é porque as coisas andam tristes.
Por onde andam minhas pessoas? Por quanto mais tempo tenho que me acostumar ao engano?
As pessoas andam tristes no asfalto molhado depois de uma tempestade de fim de ano.
Por onde andam as exclamações? Será eu que fiquei velho ou ando tendo pouco tempo?

Meus pássaros também tentam voar assim como os teus. Mas eu os liberto.

Estes meus, tão tristes, nem são tão azuis assim!
São opacos, sólidos e, vez ou outra, cor de carmim.

Um carmim triste e velho como sangue seco; daquele tipo que ninguém liga.

Ando cansado.

Mas caminho com força.

O fôlego já nem é o mesmo, mas quem se importa quando um sorriso brota em meu rosto?
Tanta coisa pra contar… E de pensar que nunca quis esconder nada de ninguém. Nem mesmo a alegria.

Mas é isso o que somos, não é?

Somos apenas um tomateiro querendo dar frutos, mas que é tão difícil de vingar!

Não pense em mim como qualquer bêbado perdido sem ter pra onde ir!
Pense em mim apenas como um bêbado. Uma criança sem as rédeas pra cavalgar.

Não quero que chores. Tão pouco que sorrias.

Apenas continue assim!
Com essa face tracejada e suja.
Com sua alma maculada e cheia de certezas.
Ora! E como não?

Eu não tenho ritmo e nem perdão!

Não tenho regras e, tão pouco

Escansão… Mas eu faço a escanção!

Daí eu rio. Pego a métrica pra desistir em seguida
Escolho uma palavra difícil pra explicar;

E perco o embalo em seguida só pra poder te dizer:

Meus pássaros são menores que os teus.
Eles tem menos cores
E nem se quer voaram tão alto.

 

Calendário.

Ele era uma pessoa muito regrada com seu calendário anual. Respeitava seu ciclo e sua rotina. Separava as tarefas de suas diversões quando necessário.

Começava a contar sempre no segundo dia do ano quando sua ressaca das festas deveria ser curada. Concentrava-se até o dia 4 quando, finalmente, o ritmo de Carnaval o dominava. Bebia desembestadamente, assim como boa parte das pessoas que possuem uma triste alegria dentro de si.

Depois do trabalho era sempre motivo para beber uma ou duas doses. A vida era boa até chegar a festa da carne. E durante esta grande festa que durava dias e dias, bebia feito um animal descontrolado. Bebia como uma prostituta sem clientes no balcão de um puteiro qualquer na zona oeste da cidade. Libertava-se durante aqueles dias sabendo que, depois, seu calendário novamente pediria uma pausa até a próxima época. E a próxima era seu aniversário.

Comemorava seu aniversário em maio; não porque realmente era, mas havia inventado uma data em que queria fazer aniversário para ter um motivo para beber durante dias no espaço de fevereiro (ou março) até junho, quando realmente comemorava seu dia. Estendia as bebedeiras, pois a cada data festiva, começava a tomar seus drinques com semanas de antecedência, sempre invadido pelo ar de alegria de uma festa que viria. De maio até junho não restavam muitos dias. Então emendava suas doses com a data de seu aniversário de verdade. Depois disso emendava mais uma vez para comemorar a revolução paulista de 32, nove de julho, e aproveitava para se esquentar no ápice do inverno; então passava todos os dias do mês sete de fogo.

Em agosto comemorava o mês do desgosto, entediado e bêbado. Em setembro bebia o mês inteiro para comemorar sua pátria, o Brasil. Em outubro não comemorava absolutamente nada, então bebia para descansar das festas que já começavam a fazer seus ossos doerem.

Em novembro bebia pela consciência negra.

Em dezembro já estavam todos o acompanhando graças ao espírito das festas de fim de ano.

Aí era um estrago.  Trabalhava de ressaca, tremia. Faltava e curava a ressaca com mais bebida.

No dia primeiro de janeiro resolvia que era hora de dar uma pausa com a bebida. Hora de se recuperar para cumprir seu calendário por mais um ano.

Ele era uma pessoa muito regrada com seu calendário anual. Respeitava seu ciclo e sua rotina.

Tinha que estar renovado para, no dia 4 de janeiro, começar a comemorar a espera do carnaval.

Morreu com 31 anos.

– Eu avisei que essa bebedeira iria o matar.

– Mas ele não morreu por causa da bebedeira.

– Então qual o motivo?

– Atropelado…

– Ah, coitado.

– Saiu da adega, atravessou a rua e não viu o carro. Seu corpo voou pra mais de nove metros.

Pedras e Folhas.

Claudio e Isabelle caminhavam pelo parque naquela manhã de 13 de novembro.

Era uma manhã sem calor e sem frio, de modo que ela usava uma blusinha branca de alças, e ele vestia o mesmo casaco xadrez vermelho e verde de sempre.

Caminhavam lado a lado pela trilha de paralelepípedos, e estevam rodeados de árvores e dos cantos de muitos diferentes pássaros.

Caminhavam em silêncio. Era uma manhã calma e de poucas pessoas para incomodar. Ele tragava seu cigarro na medida de poucos passos e olhava para as copas das árvores enquanto ela olhava para as pedras em que pisava, com as mãos nos bolsos da larga calça jeans que vestia. Volta e meia ele a olhava. Via nela os cabelos lisos e castanhos escondendo o  rosto que mirava para baixo. Às vezes ela chutava alguma pedrinha no caminho, e ele achava aquilo extremamente charmoso, então olhava para cima novamente e dispensava a fumaça dos pulmões. Quando ele fazia isso, ela o olhava. Observava a imponência do tamanho de Claudio e seus olhos castanhos e intensos e confiantes que observavam as folhas verdes acima de suas cabeças. Ela achava charmoso a forma como ele andava, era como se ele soubesse exatamente o que queria da vida, então sorria e olhava para baixo novamente.

– Qual o motivo de não termos dado certo? – ela questionou sem olhar para ele, com sua atenção voltada para os paralelepípedos e as pequenas pedras no caminho prestes a serem chutadas para longe.

– Você não quis que déssemos certo e desistiu – ele respondeu calmamente vendo algumas folhas que eram arrastadas dos galhos pelo vento que soprava forte e as levava para longe.

– Não querer que dê certo e não querer algo que não estava dando certo são coisas diferentes – Ela falou sorrindo.

Ele dispersou mais uma lufada de fumaça e a encarou sem ter o olhar dela de volta.

– No fim das contas nem importa – ele falou – Se pararmos pra pensar, as coisas dão certo ao modo delas. Hoje conseguimos sorrir um para o outro sem ter que ficar remoendo o que aconteceu. A única coisa importante realmente é que as coisas, de uma forma ou de outra, não deram certo para dar certo, entende?

Ela estacou e ficou ali, parada olhando para baixo. Ele deu mais dois passos até perceber que ela havia interrompido seu caminhar, e então parou e virou-se para ela. Ambos se olharam.

– Como as coisas estariam hoje se tivéssemos insistido?

Ele fez um muxoxo e deu de ombros quando respondeu:

– Fodidas.

Ela riu daquilo. Achava atraente a forma escrachada que ele tinha de falar.

– Ou lindas – ela disse mirando seu olhar azul nos castanhos dele.

– E cor-de-rosa? – Ele indagou.

– Com pitadas de verde limão.

– E riscos cinzas para quebrar o escândalo das cores que você sempre escolhe.

– Tudo num fundo branco para que caibam mais cores que ainda estão por vir.

Sorriram.

– É – ele disse se virando e continuando com seus passos.

– É – ela falou dando uma corridinha e retomando o ritmo dos passos da caminhada junto a ele.

Ele olhou para cima novamente e viu uma folha cair lentamente sem ser levada pela força do vento. Estendeu a palma de sua mão deixando a bituca do cigarro cair e agarrou a folha.

Ela olhou para baixo e viu uma pedrinha perfeita para ser golpeada com um de seus pés, mas não o fez.

Ficaram em silêncio novamente e caminharam naquele dia quedo onde os pássaros cantavam suas canções.