O pacífico povo brasileiro.

Foi difícil abrir os olhos com a luz do Sol forte do jeito que estava. Esfreguei a testa e levantei aos poucos. O lençol amarronzado estava bagunçado na calçada. Olhei a guia e dei um gole da água que por ela passava!

Era uma linda manhã.

Os moradores das calçadas vizinhas, assim como eu, já começavam a despertar. Seria um ótimo dia para caçar pombos e ratos. Fredie, meu cão vira-latas, havia cagado dentro da calçada. Claro que Daiane, minha mulher, ficou muito puta com a situação… Quantas vezes já dissemos para que Fredie não cagasse dentro da calçada! Mas ele não aprendia a fazer suas necessidades na rua, ele tinha mesmo é que defecar dentro de nossa calçada.

Enquanto eu espancava o cão, o homem que tomou minha casa saiu. Me apoiou pela atitude enérgica e em seguida cobrou o aluguel da minha calçada que agora era dele. Paguei, claro, pois ele me tratava muito bem desde que havia invadido meu lar.

Era uma linda manhã.

Todos os moradores das calçadas de minha rua saíram para caçar, mas não eu. Naquele dia decidi ficar com minha esposa, pois ainda tínhamos quatro baratas desidratadas, uma cebola que o homem rico que roubou minha casa havia dado no dia anterior (que homem bom é ele), e dois pedaços de bolo que a Igreja nos deu no dia de Santo Antonio. Estávamos fartos de alimento naquele dia, e fora que, de qualquer forma, se faltasse comida poderíamos matar Fredie, nosso fiel cão, e comer a carne dele.

Foi uma linda manhã até que a tarde passou e o pôr-do-sol se aninhou.

Os homens ricos que haviam roubado nossas casas por todo bairro, cidade, estado e país retornaram de seus trabalhos, nos deram boa noite e entraram para dentro de nossas que agora eram suas casas.

Retribuímos o boa noite e ficamos felizes por eles terem lembrado da gente que morava ali em suas, nossas, calçadas.

Estávamos felizes com nossa situação. Ainda havia uma calçada para morar.

Aquele foi um lindo dia.

Daiane estendeu o lençol sujo na calçada. Dormimos.

Acordei com os latidos de Fredie no meio da madrugada. Aquele maldito cão havia acabado de morder o homem rico que havia tomado minha casa. O homem rico só estava tentando pegar, embaixo do paralelepípedo que me servia de travesseiro, a carteira com o pouco de dinheiro que restava dentro dela.

Fiquei furioso.

Chutei o Fredie. “Cachorro mau” eu repetia. Entreguei a carteira para o homem rico que sorriu e bateu a mão em meu ombro antes de entrar para minha casa que agora era dele.

Minha esposa bufou.

“Amanhã damos um jeito nele”, eu disse.

“Espero que sim”, ela respondeu.

E eu sabia que a manhã seguinte também seria linda.

Mataríamos Fredie e teríamos um ótimo ensopado de cachorro mal educado.

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