Retratos Falados.

Ele estava sentado em sua poltrona. Estava casado a apenas dois meses, mas o namoro já estava engatado a mais de dois anos. Deixou tudo o que deveria fazer por amor, agora só lhe restava a programação da Netflix e suas cervejas.

Ela estava na cozinha. Seu horário confuso do trabalho, muitas ambições e poucos planos. Era isso o que fazia dela uma mulher da casa. O que restava a ela era provar para seus pais que se sentia feliz.

Estavam enjoados um do outro. Mal se viam em tão pouco tempo de casados.

Mas um dia ele na poltrona, e ela na cozinha, resolveram sair de seus lugares e irem para o quarto escolher uma roupa para depois do banho, então acabaram se cruzando.

Se olharam… Se estranharam. Quase que não sabiam da existência um do outro ali. Ficaram paralisados se encarando.

No criado-mudo não havia uma foto dos dois juntos. Até nas fotos eram separados. Um porta-retratos para cada um era o que havia.

Ele na foto fez cara de emburrado enquanto ela, dentro de sua moldura de madeira, pareceu indiferente; mas ambos, cada um em sua fotografia, encararam sua realidade ali no quarto olhando um para o outro.

Ele, de sua fotografia, olhou a moldura ao seu lado onde ela se encontrava.

– Tá vendo o que você fez? Agora estamos aqui, um de frente para o outro e nem nos reconhecemos.

Ela, de sua fotografia, olhou para a imagem dele ao lado e respondeu:

– Calma. Eles vão se entender.

– Acha mesmo?

– Não. Não acho. Estou sendo otimista. Ao menos se você não bebesse tanto e não fosse tão vagabundo, não estaríamos separados por estas duas molduras.

Ele, de sua fotografia, bufou.

– Olha aqui! Foi você quem destruiu tudo isso! Talvez, eles que estão no quarto agora, se reconhecessem caso você fosse mais tolerante com as ideias dele… As minhas!

Os dois de pé no quarto se aproximaram.

Ela, de sua foto, exclamou:

– Veja! Algo está acontecendo ali!

Os dois de pé no quarto se distanciaram em seguida do avanço, e voltaram a se estranhar.

– Eu – disse o rapaz da fotografia – Como retrato dele, não quero que ele se aproxime da dona de sua fotografia. Eles não nasceram um para o outro, veja!

A moça na foto pareceu pensar.

– Se você tivesse estudado mais antes de virar essa foto, talvez eles estivessem felizes agora, e nós dois aqui, assistindo eles dois, pudéssemos ser uma “selfie”..

A fotografia dele riu daquilo.

– Se você tivesse mais tempo e mais amor, ao invés de uma “selfie”, poderíamos ter pedido para o rapaz que vende balões no parque tirar uma foto de nós dois juntos, daí então economizaríamos nessas moldagens de madeira, e eu estaria aí, junto de você dentro da mesma fotografia.

Ela pareceu pensar um instante. Olhou para os lados e observou os retratos na criado-mudo; imóveis… Inertes.

– Quase não te reconheci – disse ela.

Ele sorriu.

– É… Eu não sabia que estava aqui em casa. Faz tempo que não lhe vejo.

– Você só pensa em escrever, beber e fazer arte – ela falou.

– E você só pensa em estudar, ficar sóbria e cuidar do que não lhe diz respeito – disse ele.

– Você é um acomodado.

– Você é uma mal agradecida.

Das duas molduras eles se olharam vendo a discussão deles mesmos naquele quarto enquanto as folhas de outono caiam no quintal.

– Será que nós… ELES… teriam sido mais felizes dentro de uma moldura? – ela questionou.

Ele pensou dentro de seu retrato. Encarou o casal discutindo ali. Imaginou viver aquilo sem ser um simples retrato, uma parte travada no tempo que, se rasgado, todos esqueceriam.

– Eles estão dentro de uma moldura, mas para nós, que somos retratos separados por estas pequenas tiras de madeira é impossível de ser ver o que acontece.

Ela sorriu em seu retrato.

Ele retomou sua pose e engoliu as ofensas.

Ela, antes de retomar sua pose, respirou aliviada por não estar na mesma moldura.

 

Fizeram as malas após a discussão.

Resolveram que era melhor cada um ficar em seu porta-retrato.