A (não tão) Divina Comédia.


Não fazia muito tempo que havia ido parar no inferno.

Estava no setor dos Boêmios.

Sua barriga estava estufada. Os dedos médio e indicador estavam queimados na parte interna. Seu pênis estava em carne viva e ardia ao menor toque, sempre ereto por mais que ele não quisesse. Resultado das cervejas que lhe traziam, dos cigarros que nunca acabavam e das milhares de mulheres que ainda tinha que fornicar. Este era o preço a pagar pela vida que levara no mundo da carne.

Ao contrário do que pensam, ao seu redor não havia labaredas de fogo e lagos borbulhantes. Era na verdade uma cama infinita com várias mesas de bar sobre o colchão cheio de pulgas que se balançavam no ritmo das pessoas que faziam sexo e dos garçons que andavam para cima e para baixo obrigando a todos a beber e fumar.

Ele arrotava cerveja, sentia seus pulmões (já mortos) cheios de fumaça e suas coxas estavam banhadas de sangue que jorrava da parte íntima que não descansava de sexo.

Depois de um longo tempo um ser humanoide que parecia ser feito de ouro apareceu próximo. Espantou as mulheres e recolheu o homem que sorriu de alívio.

– Está arrependido? – questionou o diabrete.

Sem poder falar de tanto cansaço o homem apenas sacudiu freneticamente a cabeça em sinal de positivo.

– Pois bem – falou o ser dourado – Me acompanhe.

Eles deram as mãos e, instantaneamente, estavam em um salão luxuoso com poltronas e muitos retratos de algo que não passava de uma bola de luz.

– Você sabe por que está aqui no inferno?

– Não.

– Está aqui pela vida que levou de bebedeiras e sexo sem casamento.

O homem olhou abismado e disparou:

– Por isso?? Mas eu sempre fui uma pessoa boa!

– É o que diz – respondeu o ser com escárnio, que depois se dirigiu à uma mesa e pegou alguns papéis. Retorceu o nariz e continuou a dizer – Veja aqui. Numa noite só você foi pra Rua Augusta, bebeu nove latas de cerveja e fornicou com uma prostituta.

O rapaz andou para mais próximo do ser que brilhava ouro. Viu que ele segurava fotos dos dias de sua vida e um relatório por escrito de suas atividades naquela noite.

– Olhe bem – disse o homem segurando o pênis que, finalmente, estava molenga e ensanguentado – Sei que não levei uma vida cristã, e na verdade de nenhuma outra vertente religiosa, mas sempre fiz coisas boas sem interesse algum.

O diabrete o encarou e sorriu mostrando seus dentes que eram verdes; feitos de esmeralda.

– Rapaz humano. Os cristãos estavam certos. E acredite, isso também não me agrada, mas as coisas são como são, por isso você sofreu este castigo.

O homem o encarou.

– Eu adotei nove crianças maiores de 13 anos que não tinham futuro, e todas elas hoje são formadas e pessoas de bem.

– Mas você bebia – respondeu o diabrete sem interesse de encarar o homem enquanto analisava os papéis.

– Mas eu também doei mais de vinte mil dólares para instituições de caridade.

– Mas você fornicava – respondeu o ser dourado arrancando com a unha um pedaço de casca de maçã que estava entre os dentes da frente.

– Eu ajudei amigos em dificuldade, nunca roubei um rabanete de feira. Devolvia o troco quando estes eram me dados a mais. Comprei um sítio para cuidar de animais de rua. Fundei uma Cooperativa que dava trabalho digno aos homens pobres. E mesmo não frequentando a igreja, eu doava dinheiro aos cardeais para que pudessem realizar seus trabalhos sociais!

O ser dourado olhou para o homem por cima do ombro direito.

– Você era Ateu, né?

– Sim.

O ser arregalou os olhos e sorriu com os lábios cor-de-ouro apertados.

O homem se sentiu indignado. Olhou para as mãos que seguravam seu membro esfacelado e voltou o olhar ao diabrete e gritou numa mistura de rosnado e palavras:

– EU MORRI POR SALVAR A VIDA DE UMA CRIANÇA DE UM ATROPELAMENTO!

O ser se virou e encarou o homem de frente. Fez uma cara sarcástica e falou lentamente.

– Infelizmente isso aqui é dos cristãos. Não se trata de Yu-Yu Hakusho, onde você salva uma criança do atropelamento e vira um cara à serviço de Deus.

– Então dane-se as coisas boas que fiz?

O ser assinalou positivamente com a cabeça.

– E dane-se eu nunca ter ferido alguém?

O ser assinalou positivamente com a cabeça.

Tudo por que eu era Ateu?

O ser assinalou positivamente com a cabeça mais uma vez e disse:

– E por que bebia e fornicava.

O rapaz balançou a cabeça e indagou:

– E o que estou fazendo aqui, afinal?

– Deus resolveu te perdoar. Você vai para o Céu.

O jovem homem humano não escondeu a alegria em seu rosto. Poderia pular se suas partes baixas não ardessem tanto!

– Que bom que fui perdoado! E me diz. O que existe no Céu? Quais as maravilhas daquele lugar?

O diabrete dourado encarou o homem com certa pena. Aspirou lentamente uma grande quantidade do ar que fedia carniça e enxofre, depois soltou uma lufada pelos lábios semi-serrados.

– Lá existe um grande campo de grama verde, coelhos brancos correndo de lá para cá; pessoas cantando salmos, Anjos tocando arpas… Você vai ficar lá, sentado vendo tudo aquilo pela eternidade, conversando sobre Deus e seus mandamentos. As pessoas dirão que lá é um lugar feliz, e é isso o que você vai fazer pelo resto de sua eternidade.

O homem olhou para os lados e seu sorriso afrouxou. Ele olhou para cima e depois para seu pênis em carne-viva. Levantou a cabeça e encarou o diabrete. Uma lágrima escorreu de um de seus olhos.

– Nada das virgens de Alá?

– Na-di-nha – respondeu o diabrete pausadamente no que quase foi um sussurro.

– Nada de Valhalla com banquetes e bebedeiras enquanto aguardamos o Ragnarök?

O ser negativou balançando a cabeça dando dois estalos com a língua no céu da boca – Apenas grama e Coelhos.

O homem olhou novamente para seu pênis carcomido e depois para o diabrete e disse:

– Você pode me ceder uma almofada?

– Pra…?

– O colchão aqui no inferno está me deixando com uma maldita dor no pescoço. Só me arruma uma almofada. Nem precisa me levar lá de volta. Eu mesmo acho o caminho. Só me arruma a merda da almofada, repelente pras pulgas  e a porra de um K.Y.

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