E quando eu chegar em casa.

Acompanhei Larissa até a Estação Paraíso do metrô onde ela deveria encontrar sua namorada. Nos despedimos e ela saiu do vagão. Por lá fiquei seguindo meu caminho olhando os velhos com suas caras esbranquiçadas e enrugadas sentados cada um em seu banco com feições de quem parece pensar em acontecimentos de mais de vinte anos atrás. Ainda no mesmo vagão os jovens animados por acabarem de sair de suas faculdades. Seus rostos enrubescidos e felizes. A infinita promessa de um futuro cheio de alegrias; eles nem notavam que seus futuros estavam bem alí, no mesmo vagão. Cada qual num banco de aposentados tendo devaneios de um passado que um dia foi cheio de promessas.

Eu também devaneava, ainda que de pé com os outros jovens. Eu estava no limiar. Eu me encontrava entre o ânimo e o pensamento apático. Eu estava já no meio de minha história. Um conto cheio de alegrias e tristezas. Eu estava na página cinquenta de um livro de cento e vinte páginas. Eu estava quase na metade da história de minha vida.

Desci na estação Praça da Sé e subi as escadas para fazer a baldeação em direção a linha vermelha. Com sorte chegaria em casa antes das onze e meia da noite. Caminhava pensando no casamento do qual fui padrinho dias atrás. Imaginava se veria novamente cada pessoa que estava naquela festa. Lembrei da cerveja, lembrei da valsa; das fotos; dos carros; do glamour, da gravata torta e do tempo frio daquele dia festivo. Depois pensei que deveria ter feito as tarefas da matéria de inglês. Eu detestava esta matéria. Então pensei nas razões do universo e se realmente existia um Deus orquestrando tudo o que me rodeava.

A porta do vagão abriu e entrei. Com certeza conseguiria chegar mais cedo em casa. Quinze minutos que fosse. Isso já seria um sucesso. Uma lata de cerveja a mais antes de dormir. Quem sabe uma dose de vodca.

Ali na linha vermelha, a mesma cena de velhos sentados e jovens de pé. Um casal de negros se beijava gentilmente, sem alarde. E eu sorri com aquilo. As mãos deles tremiam agarradas uma na outra. Mochilas nas costas. Certamente estavam juntos fazia pouco tempo. Ela se despediu dele na estação Belém e ele permaneceu no vagão. Depois de ela ter saído, o sorriso permaneceu no rosto do rapaz. Sorri novamente: “Aproveitem as promessas da vida”.

Daí então eu a vi. Sentada entre os velhos. O rosto úmido e olhos encharcados. A ponta do nariz vermelha de tanto chorar. Acho incrível como a tristeza chama mais atenção do que a felicidade. Nossos cérebros são programados para perceber a tristeza.

Fiquei imaginando o que aquela garota tinha. Não devia passar dos vinte anos. O que aconteceu que a entristeceu ao ponto de sentar-se ao lado dos velhos enquanto os jovens de pé sorriam?

Seria o fim de um namoro? Uma nota fraca em alguma prova, quem sabe? Talvez a morte de um ente querido,   ou os sapatos que apertavam seus pés.

Pensei em inúmeras possibilidades e passei a observá-la mergulhado, junto dela, em sua tristeza, mas sem saber a profundidade daquele lago.

Daí então nossos olhares se cruzaram.

Saí daquele lago em que havia mergulhado e voltei para o meu livro que segurava em minhas mãos, mas não consegui mais ler. Meu corpo estava ensopado por aquela água. Eu olhava as letras na página fixamente sem sair da mesma linha; tentava apenas disfarçar que estive ali mergulhado dentro do lago que pertencia a ela. Pude perceber que ela parou de me olhar para voltar a chorar enquanto os velhos sentados ainda pensavam e os jovens de pé ainda sorriam. Respirei fundo e pensei em me sentar também. Mas a voz robótica ecoou no vagão anunciando a estação Patriarca.

Caminhei saindo do vagão. Desci as escadas rolantes. Peguei a condução para minha casa.

Ao chegar em casa ainda pensava na garota triste e no que poderia ter acontecido à ela.

Joguei a mochila para o lado. Respirei fundo e, finalmente, me sentei. Não sentia tristeza e nem alegria. Eu estava na página cinquenta de um livro de cento e vinte páginas.

Ainda era onze e quinze da noite.

Peguei duas latas de cerveja e uma dose de vodca.

Imaginei que seria melhor que eu nunca precisasse sentar num dos bancos do metrô. Eu deveria me manter jovem para sempre de forma que nem a tristeza me colocaria pra sentar.

Bebi a vodca e depois fui deitar.

Depositem suas letras em vossas cavidades retais.

Às vezes penso eu que é bem melhor estar fora das Letras, ainda que, por ventura, eu ainda insista em me tornar uma pessoa letrada, como no atual momento em que voltei a estudar.

Ainda que eu tenha feito estas matérias do primeiro ano, para mim lá tudo é sempre uma novidade, uma perspectiva diferente do que já me disseram. Aproveito e degusto. Estar estudando com um corpo docente diferente te dá muito mais opções do que absorver para a mente. Eu não respondo as perguntas que os professores lançam na sala, ainda que, de algumas delas, eu saiba a resposta. Fora timidez, a insegurança do que eu acho que eu já sei. Acho que nunca saberei.

Mas existem pessoas das quais ando convivendo em sala de aula que simplesmente me irritam!

Por que Letras é tão cheia de pseudo-cultos?

Pessoas que buscam, pela linguagem, desprezar os menos letrados; pois, afinal, todos que sabem escrever são, de certa forma, letrados. Quando a pompa do “pessoal de Letras” vai cair? Quando será que poderemos parecer mais com professores de História que possuem vasta sabedoria e uma humildade fascinante?

A tal da Andressa Urach lançou um livro que vende feito água. Isso foi um estopim dentro da sala de aula! “Aquela coisa”, diziam eles em protesto: “Lança um livro… As pessoas comem lixos escritos”.

Mas poxa vida… Qual a razão de pensarmos assim?

Ok. Eu nunca leria aquele livro, mas que mal tem as pessoas lerem? Vai me dizer agora que a humanidade inteira deveria ler Machado de Assis? Deveriam ler obras clássicas como “O Retrato de Dorian Gray”? Que deveriam regurgitar amores lendo os Lusíadas?

Pro inferno!

Essa gente se masturbava com as fotos de Andressa Urach antes de ela se tornar uma pessoa de família e levantar cartazes em prol da Família Brasileira.

Pro inferno vocês e pro inferno a bunda dela. Gozei o que tinha que gozar. Andressa e eu seguimos caminhos diferentes e nos deixamos em paz! Deixem-na escrever. Ela vende. Eu não. E nem você aí no primeiro ano de Letras vende. Então vai você pro inferno também!

Ah, claro! Não podia faltar o Paulo Coelho.

Não entendo essa cisma com o cara.

Os professores dizem que é ruim… Eu devo dizer?

Para alguns, sim!

O que me agasta é que estas pessoas que se mostram tão fodas, provavelmente leram mais obras clássicas do que eu, mas nem notaram que o professor, em sua vasta sabedoria, não escreveu inteiro a “Cantiga da Ribeirinha”. Pois é. Aí vem falar que alguns escritores não deveriam existir.

Até entendo. A gente se mata pra escrever ou lecionar, e uma pessoa faz uma obra ruim que vende muito. Mas isso seria como eu pintar um quadro, coisa que gosto de fazer, mas faço mal, e não vender quando alguém me fizer uma oferta milionária… Imagina?

  • Vende esse quadro feio pra mim por quinze milhões.
  • Não. Não venderei. Pois é uma obra de arte ruim essa que eu fiz.

Fala sério!

Esse rei na barriga dos Letrados me deixa encoleirado em minha raiva, enjoado e enojado daqueles que, por incrível que pareça, gostam das mesmas coisas que eu.

Esses cultos… Eles me fazem rir de raiva. Mas uma hora eu crio coragem de falar-lhes umas boas verdades, afinal, meu pau é maior que o deles! E me sentirei orgulhoso quando me mandarem pro inferno também.