In Memoriam


Cada um é dono de si. Como dizem: Meu corpo, minha vida, minhas regras. Mas até quando isso pode ser verdade?

Nunca sabemos da dor daquele que tem tal atitude, mas os que ficam, sabem da dor dos amigos e parentes daquele que se vai, numa atitude completamente egoísta (não adianta falar, porque é) e, quiçá, muito corajosa.

Para tirar a própria vida uma pessoa deve renunciar à todos os instintos primitivos que os humanos carregam desde seus ancestrais. É como ir contra si mesmo enquanto sua biologia diz completamente o contrário.

Quando a depressão alcança uma pessoa, essa atitude fica mais fácil. Não dá pra julgar. É uma doença. A depressão pode ser comparada a máxima de se estar preso no décimo sexto andar de um prédio em chamas. O fogo chega perto e o que te sobra é a janela. Você sabe que não vai viver, mas sabe que não existe alternativa senão aquela. Daí você pula sabendo que vai morrer. Mas morrer espatifado é, aparentemente, melhor do que ser inteiramente queimado.

Mas a depressão pode ser contornada com ajuda, mas nem sempre a pessoa vítima dessa doença procura ajuda. Algumas nem sabem o que está acontecendo, e aquele amargor no peito aumenta. Queima. Aí já era.

Lembro de como ele era completamente maluco, apesar de ser ótima pessoa. Prestativo e sorridente. Sofrido, até, mas sorridente. Com tantas responsabilidades acabou sumindo… Pouco contato. Era visível, pela vida que levava, que isso poderia acontecer; mas eu não achava que seria uma morte proposital… Eu nem imaginava a morte, na verdade… Imaginava um cara bem louco na esquina de uma rua dormindo. Fica o exemplo.

Quando pensamos em suicídio, nunca imaginamos isso próximo a nós. E a sensação é completamente estranha. Diferente de qualquer outra morte que eu já experimentei. Não tive vontade de chorar. Não teve raiva. Não teve nada. É uma apatia.

Mas vem a pergunta: Por quê?

Eu não vou entender. Seus irmãos, menos ainda. Seus filhos, sua mulher… Cara… Que merda você fez?

Escrevo isso sem lágrimas. Na verdade ensaiei isso e nem tive vontade de escrever, mas o fiz… Não sei se isso é merecido. Não sei nem se lhe faltava razões. Isso é o pior… Só fica a pergunta tilintando… Por que, cara? Por quê?

Tudo o que você fez me causou um pensamento. Antes eu dizia que a gente vê que está ficando velho quando as festas em que vamos têm mais crianças do que adultos. Quando a maioria dos nossos amigos estão casados… Mas não. Isso não e verdade. A gente nota que está ficando velho quando carregamos o caixão de uma pessoa que um dia chamamos de amigo… De uma pessoa que AINDA é um amigo. Não foi bonito… Não foi. Você pesava. Pesava mais do que quando carregávamos de cavalinho nas costas.

Mas está tudo bem. Isso acabou para todos. Espero que realmente você tenha feito esta escolha com certeza. Se fez, estaremos bem. Se não… Aí eu lamento pela escolha mal feita.

Vou me lembrar de você e sua bicicleta. Vou me lembrar das bebedeiras, dos cigarros… Vou me lembrar do quanto você amava, junto ao Davison, declamar o começo da música “Number of The Beast” do Iron Maiden… Vocês eram sincronizados fazendo isso.

Vou me lembrar do quanto você falava do antigo Kazebre, aquele que sempre morria um por semana. Vou me lembrar dos planos de nossa banda em que você era o baterista, e que nunca soube tocar. E vou me lembrar de que você, um dia, foi o mais velho da turma, e por isso seguíamos tudo o que você dizia.

Apesar da distância de ultimamente, distância essa que eu achei que seria vencida, como sempre era quando nos víamos, mas que falhou dessa última vez, tenho que dizer que te amo. Tenho que pedir para que fique em paz, seja lá como for deste lado.

Você me fez lembrar o Clodoaldo. Me fez imaginar que agora o velho Clô vai ter alguém pra falar bobagens por aí!

Beba por mim… BEBAM por mim!

Em breve Davison, eu e todos os outros estaremos chegando. Mas que demore. Ao contrário de você, eu não adiantarei a passagem.

Fica em paz, meu amigo! E para de fazer bobagens.

In Memorian: Luciano Lima de Souza – O Eterno Bigode do Leôncio.

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