FELIZ ANIVERSÁRIO, DULCE FAR NIENTE!

Hoje, dia 25 de julho, o Dulce faz sete anos de idade. Sete anos de textos melodramáticos, barulhentos e cínicos.

Parabéns, meu blog que, curiosamente, faz aniversário no dia do escritor!!! E eu nem sabia, na época, que tinha dia do escritor!!!

E se eu posto em você com menos frequência do que anos atrás, é porque agora você já é um mocinho!!!!

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Ósculos e amplexos pra você!!!

O Poço

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Já fazia mais de meia hora que ela estava sentada na cadeira do bar com os dois cotovelos apoiados à mesa enquanto as mãos estavam segurando o queixo.

Aquela devia ser uma noite de comemoração; ela deveria estar irradiante, mas esperar nunca fora seu forte, e César já havia passado da conta da elegância do atraso. Ela sentia-se irritada.

Na tarde daquele dia, Alana recebeu a ótima notícia que havia sido aprovada para uma vaga de emprego em Belo Horizonte. Tinha uma semana para arrumar as coisas e partir para o trabalho de seus sonhos. Uma semana para organizar a mudança para a casa que, inicialmente, seria alugada pela empresa. Uma semana para se despedir de seus amigos em noitadas de festa. Tinha exatos sete dias para abraçar os amigos, se despedir de seus pais e dar todas as instruções para seus primos que ficariam com seus cães.

Alana sabia que Belo Horizonte não era nada longe de São Paulo, mas mesmo assim, tinha noção de que a rotina da qual estava acostumada ficaria para trás; em outro Estado.

– Mais uma cerveja, moça? – perguntou o jovem garçom esfregando as mãos na parte do peito de seu avental.

Ela olhou para os lados e viu os carros passarem na enorme avenida à sua frente.

– Sim. Mais uma.

Meia hora de atraso já virava quarenta minutos. Ela bufava de raiva. Tinha mais o que fazer com seu tempo ali.

Depois de mais quinze minutos e mais meia garrafa de cerveja, viu César se aproximar.

– Caralho, meu! – ela falou sem pensar duas vezes – Faz um tempão que to aqui! Você disse que já estava chegando.

César sorriu descontraidamente sentando à mesa na cadeira ao lado dela e lhe deu um beijo na bochecha rosada.

O jeito tranqüilo do rapaz era o que ela mais odiava. Para ele a vida era uma calma.

Ela sequer sabia como conseguia gostar tanto de uma pessoa tranqüila daquele jeito.

– Olha só – César já foi falando enquanto enchia de cerveja o outro copo que estava esperando vazio – Enquanto eu estava vindo pra cá, uma moça me parou para falar alguma coisa sobre crianças da UNICEF. Ela inicialmente me pediu um minuto, mas demorou “pakas” pra explicar. Por isso demorei. Mas relaxa. Tô aqui!

Alana respirou fundo.

– Você me deixa quarenta minutos esperando para ouvir uma moça falando sobre a UNICEF?

– Alana. São crianças!

Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente em sinal de inconformidade. Aos poucos seus lábios sorriram, mas era um riso incrédulo.

– A menina que te parou era bonita, não é, César?

Ele riu alto e jogou as costas no encosto da cadeira de madeira.

– Fala, César!

Ele parou de rir.

– Sim. Era… Era sim! Mas não foi por isso que parei.

– Então porque foi?

– Foi para ouvir sobre as crianças!

Foi a vez de Alana rir alto. Ela bateu com a palma da mão na mesa e disparou!

– Você é um Sommelier de menininhas, César. Você acha que me engana?

O riso do rapaz desapareceu à medida que o dela aumentava. E assim ele ficou sério.

– Não tem graça, Alana. Babaquice falar isso depois de tanto tempo.

– Eu nunca te disse isso.

– Disse sim… Um tempo atrás… Só que agora com outro tema e em tom de piada.

*

Alana bateu forte a porta e avançou pelo corredor de seu apartamento. Quando a porta do quanto se abriu novamente, César saiu andando atrás dela.

– Alana, por favor, volta aqui. Você precisa se abrir! Precisa me falar o que acontece.

Ela abriu a porta que levava ao Hall das escadas.

– Vai embora, por favor. Pega suas coisas e vai. Amanhã a gente conversa.

Cesar parecia não acreditar no que ouvira.

– Amanhã a gente conversa? Mais uma de nossas conversas unilaterais da qual apenas eu falo?

– Cesar, sai, por favor – pediu ela de olhos fechados e respirando profundamente.

Ele acenou com a cabeça e foi até o quarto; logo voltou com sua mochila.

– Certeza, Alana? – questionou ele.

Alana o encarou nos olhos. Os olhos dela pareciam dois poços castanhos prestes a transbordar. Os olhos dele, por sua vez, nunca transbordavam. Ela se manteve em silêncio.

– Tá bom.

Ele cruzou a porta e olhou para ela.

– Olha Alana. Não foi por mal. Nada do que eu faço é por mal.

Ela então o encarou com uma única lágrima escorrendo primeiramente pela lateral esquerda do nariz até o canto de sua boca.

– Você é sossegado demais. Acha que tem todo o tempo do mundo. É um Sommelier de momentos –  ela disse e riu tristemente.

– Se você se acalmar, posso te ver amanhã?

Ela balançou a cabeça positivamente como quem tenta agarrar a paz. Ele sorriu tranqüilo, pôs a mão em seu rosto e enxugou a lágrima no rosto dela. Depois a beijou levemente nos lábios.

Ele virou as costas e desceu as escadas. Ela fechou a porta e impediu que seus poços transbordassem mais ainda.

*

Os carros iam de um lado ao outro com velocidade pela avenida. Do outro lado estava o Museu da cidade; estavam as pessoas apressadas pela calçada e os músicos de rua querendo ganhar seus trocados.

– Não me leve a mal – disse Alana – Mas essa coisa de fazer piadas com a palavra “Sommelier” é muito boa.

Ele engoliu de uma vez a cerveja. Olhou para o museu e, como quem acha melhor, resolveu sorrir.

– Pior que você tem razão.

– Eu sei – ela disse e riu propositalmente da forma que ele mais gostava que ela sorrisse.

– Diga, Alana. Você me disse que tinha uma ótima notícia pra me dar hoje, e que devíamos comemorar pela madrugada toda! Quero saber.

A menina olhou o copo de cerveja pela metade. Encheu o dele e completou o próprio copo.

– Então. Lembra quando fui pra BH e fiquei lá durante um tempo?

– Sim – ele respondeu sorvendo um gole da cerveja com desgosto.

– Você sabe o que fui fazer lá?

Ele riu e coçou a nuca.

– Não. Nunca nem tive vontade de perguntar. Você foi pra lá depois que terminamos.

– Sim… Eu fui ver uma vaga de emprego. Emprego dos bons. Daqueles que podemos reformular a vida inteira num passe de mágica!

Cesar não estava mais com o habitual sorriso, e perguntou:

– Ok, e o que isso tem a ver com a comemoração?

Alana deu um gole profundo. Depois respondeu com mais orgulho do que alegria:

– Me ligaram! Fui aprovada. Vou pra Belo Horizonte empregada! É a chance da minha vida, meu amigo!

Ele sorriu largamente e de forma congelada!

– Legal! E quando vai.

– Em sete dias.

– Pouco tempo – ele disse olhando para o copo.

– Não… Vai dar pra arrumar tudo; me despedir, arrumar as coisas… E nem é longe, você pode me visitar quando quiser!

– Não… Não era desse tempo que eu estava falando.

– Que tempo então? – perguntou ela franzindo o cenho.

– Ah, Alana! Feliz por você. Preciso fumar. Topa um cigarro?

– Faz tempo que não fumo, César, mas topo sim.

Ambos saíram juntos do bar e foram para a ponta da calçada. Acenderam os cigarros e ficaram em silêncio observando o movimento e o museu do outro lado da avenida. Ambos em sentimentos diferentes ainda que o tempo continuasse exatamente o mesmo para os dois.

Estavam de pé um do lado do outro. O vento soprava frio naquela noite. Seus ombros se tocavam sem querer.

– Quer saber de duas coisas, Alana? – César perguntou mantendo seu olhar fixo para o museu.

Ela o olhou lentamente enquanto ele mantinha seu olhar para frente, sem virar a cabeça para ela.

– O quê?

– Você é uma grande sommelier de aventuras.

Ambos riram muito até ela perguntar:

– E a segunda coisa?

Sem ainda olhar pra ela, ele disse:

– Tô apertado pra cacete, preciso mijar porque nossa noite de comemoração vai ser de arrasar.

Alana gargalhou enquanto ele jogou seu cigarro no chão e tomou o caminho para o banheiro do bar.

Enquanto ele caminhava para dentro do estabelecimento, eram seus poços que queriam transbordar.

Direitos.

Você não tem o direito de viver o que já viveu. Você não tem nenhum direito de passar por algo bom que já passou um dia e deixou passar. Passou e você não vai passar de novo, pois tudo passa, e aquilo já passou.

Você não tem o direito de recuperar o que perdeu. Aquilo está perdido. O que um dia perdeu nunca mais será encontrado, pois ficou perdido.

Você não tem o direito de nada. Nem o direito de ficar feliz por pensar que poderia passar novamente por algo perdido.

Coloquei as melhores roupas que eu tinha. Esperei que ela não notasse que as meias eram repetidas. Esperei que ela não percebesse que aquelas nem eram de verdade as melhores roupas que vesti um dia. Eu só esperei.

Feito uma criança aguardei um momento de carinho, mas tive apenas relampejos de uma verdade que vinha à tona.

Aguardei o direito de passar o que vivi esperando o direito de recuperar o que perdi.

Mas eu não tive o direito de nada.

Nem mesmo o direito de perder.