Um Post Em OFF

Não devia estar postando hoje. Mas precisei fazer.

Por muitas vezes sonho com trilhos. Uma espécie de terminal de trem, tipo o Brás. É estranho! Eu pego o trem e vou pra algum lugar. Converso com pessoas que nunca vi. E este sonho é sequencial! Faz algum tempo que sonho com estações.

Os trilhos se entrelaçam em cada estação. Uma maior que a outra. Cada estação é uma baldeação! Estações enormes.

Ando sonhando muito com isso.

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Morte, morte e morte.

Para começar de forma verdadeira, eu sequer sabia seu nome. Era um “japinha” de uns 28 anos de idade que bebia frequentemente no mesmo local que eu costumo, até hoje, frequentar.

Parece-me, segundo o que dizem, ele bebeu sua cerveja e, aproximadamente às 22h horas saiu com seu carro e foi acertado num cruzamento por um ônibus sanfonado. O carro foi arrastado por metros e ele faleceu ali mesmo.

Não houve notícias. Os pesares vieram de familiares e de pessoas que costumavam vê-lo beber a cervejinha dele quase sempre. Era simpático e sempre cumprimentava as pessoas.

Um dia antes da fatalidade eu o vi na esquina de minha rua. Conversamos poucas vezes, mas ele sempre fez questão de me dar um “oi” com seu sorriso de professor, que era sua profissão. Lecionava História, se não me engano.

As pessoas ficaram chocadas.

Ao que me parece, o farol estava verde para ele. Mas o ônibus fez questão de atravessar sua vida de forma brutal. Não importa se estava vermelho ou se estava verde. Não importa se foi o ônibus ou a cerveja que lhe concedeu falta de atenção. O que realmente importa é que, daqui alguns dias, quase ninguém vai se lembrar daquele japa sorridente.

Não. A morte dele me chocou, mas não chegou a doer. Eu mal o conhecia e trocamos poucas palavras entre uma cerveja e outra em mesas separadas.

O que me fode é que hoje, um rapaz que não citarei o nome, pois o Goooooooooogle faria muitas pessoas caírem aqui em suas pesquisas, infelizmente também morreu de forma trágica num acidente de carro. O rapaz trabalhava (era artista), e teve seu carro capotado. Ele e sua namorada, infelizmente, morreram.

Este rapaz deixou sua vida aos 29 anos… Uma idade semelhante ao do Japa. Eu lamento. É lamentável. Que os deuses acariciem seus familiares neste momento. Mas como eu ia dizer, o que me fode de verdade é a reação das pessoas.

Dou os pêsames àqueles que eram fãs deste rapaz. Esses também merecem condolências. Mas vejo muitas pessoas que sequer conheciam seu trabalho e estavam chocados. ]

Teriam estas pessoas se sentido assim na morte de um amigo próximo? Porque os famosos sempre nos chocam mais do que os que são próximos à gente?

Não sei.

O que me mata é que, assim como muitos, a morte do rapaz famoso, depois de um tempo, vai estar na minha lembrança; diferente do japa sorridente que sempre me cumprimentava nas ruas do bairro.

Escrevo isso para não me esquecer.

Escrevo isso para lembrar de ambos. O japonês que eu pouco conhecia e o cantor que soube da existência hoje pelos jornais.

A morte é inconveniente. Mas a dor é pior, porque arde mais quando o coletivo é maior, se é que me entendem.

Nada sempre termina em nada.

Depois de deitarmos, quando já relaxados, acendi um cigarro.

Ela não reclamou; claro que não. Como poderia?

Acendeu seu baseado e me questionou sobre como eu me sentia em estar com uma pessoa da qual nunca seria possível haver relacionamento algum. Sorri simploriamente e traguei mais uma vez o cigarro enquanto o dela abafava o cheiro do meu com seu odor.

– Me sinto de forma alguma – foi minha resposta.

Levantei nu da cama com o cigarro no canto da boca. Peguei a garrafa de Jagerméister e coloquei mais um pouco no copo.

Virei a bebida. Traguei o cigarro. Mais bebida e dei um trago mais profundo fazendo com que a ponta em brasa crescesse voluptuosamente.

– Você é estranho – ela falou – Parece tão romântico… Até é romântico, mas não tem medo de perder nada.

Mirei uma outra garrafa. A de vodca. Derramei no copo, mas ao invés de derramar garganta abaixo, caminhei até a cama e joguei o liquido sobre os seios nus da menina.

Ela gritou com a bebida gelada, mas não demorou pra sorrir.

Levei minha boca no centro de seu peito e suguei. A bituca ainda estava na minha mão, a maconha na mão dela.

– Joga essa merda fora – eu disse.

– Não – ela respondeu.

– Você é quem tem medo de perder as coisas – eu disse.

– A gente já perdeu tudo o que tínhamos pra perder. Somos dois derrotados, mas ainda estamos por cima das moscas que nos devoraram.

Eu sorri.

– Você é o melhor sexo que tive até hoje –  eu sussurrei enquanto começávamos novamente os movimentos naquele quarto pequeno de Motel.

– E você o meu – ela respondeu engasgada com um gemido.

Tomei o baseado de sua mão e traguei. Joguei fora junto com o que restava do cigarro. Tudo acontecia ao mesmo tempo. Era um amalgama de sentimentos.

– Não vai dar em nada –  ela insistiu em confirmar.

– Eu sei – eu insisti em concordar.

A garrafa de Jagerméister estava a nos assistir.

Eu jurei que nunca mais colocaria uma gota daquela bebida em minha boca.

Nada nunca deu em nada.

Nem nossos encontros depois disso.