Para-Brisas.

Quando viajávamos, eu gostava da forma como ela colocava o banco do passageiro para trás e reclinava-o; depois disso ela descalçava seus pés e esticava até encostá-los no para-brisas do carro enquanto eu dirigia.

Sentia-me feliz vendo-a relaxar e o vento que entrava fazia seus cabelos esvoaçarem dentro do automóvel a cento e vinte por hora na rodovia.

Ela repousava uma de suas mãos na minha coxa direita e colocava seus óculos escuros. Acho que esse era um dos motivos que me faziam levantar cedo no sábado para viajarmos. O momento em que eu dirigia era o mais belo. A natureza ao redor das estradas e a presença dela, completamente inerte ao mundo, ao meu lado.

Durante as semanas enquanto eu estava no escritório, ela vivia me mandando mensagens sobre reservas de hotéis nas mais variadas cidades do estado de São Paulo e Minas Gerais; eram os dois estados que mais gostávamos de viajar. Toda quarta-feira decidíamos para onde ir. Sábado caíamos na estrada.

Eu gostava da forma em que ela contava suas histórias enquanto seus pés descalços carimbavam o vidro da frente, do lado de dentro, do carro. Eu amava suas unhas bem cortadas e seus dedos perfeitamente simétricos. Eu adorava a forma de ela ficar à vontade ao meu lado.

Toda parada na estrada era uma desculpa para ela beber uma cerveja e, cada cerveja, era uma desculpa para uma parada mais à frente. “Preciso ir ao banheiro” ela dizia.

Quando deitávamos na cama do hotel ela falava sobre poemas e os livros que mais gostava. Ficávamos em silêncio escrevendo cada um em seu caderno. Depois bebíamos alguma coisa e fumávamos um cigarro antes de fazermos amor.

Eu adorava vê-la no banco do passageiro com seus pés no para-brisas. Diante de tudo isso só havia um problema…

Ela havia nascido para dirigir.

Ela queria guiar.

Ela não queria apoiar os pés na merda do vidro do carro.

Eu amava vê-la fazendo o que ela odiava fazer.

Mas eu nem sabia de suas vontades…

Ela nunca me disse que queria dirigir a porcaria do carro.

Ela só precisava me falar que queria dirigir a porra do carro.

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Uma página.

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A Arma.

Fazia muito tempo que Roberto não chegava perto de uma arma.

Sentia-se feliz com isso, mas também não podia negar que algo lhe faltava.

Na época em que em que atirava todas as noites, sentia-se realizado e completo. Cada disparo lhe dava prazer.

Na primeira vez em que ouviu o estalido da pistola, sentiu-se inseguro. Mas a arma cabia perfeitamente em sua mão. Nunca atirara melhor com nenhuma outra. A arma parecia gostar dele também.

Toda semana era um tiro diferente, mas sempre no mesmo lugar. E aquele chumbo todo ia se acumulando. Ele amava sentir o peso do chumbo, até que com o tempo passou a ter a cabeça pendida para baixo. Passou a arrumar seu quarto e manter tudo lindo. Tudo para que a munição nunca findasse.

Sempre que saia levava sua arma na cintura. Gostava de levar ela para todos os cantos… Sentia-se seguro desta forma.

Até que um dia não houve disparo e se desfez da arma.

No início não foi fácil.

Suas mãos pareciam não ter mais serventia e o chumbo acumulado pesava mais do que nunca.

Meses se passaram. Ele aprendeu a brincar com facas, mas os ferimentos nunca pareciam profundos. Depois o peso do das balas foi indo embora aos poucos. Ele ergueu novamente sua cabeça apesar de as sequelas terem permanecido.

Muito tempo depois a mesma arma de antes reapareceu em meio a bagunça acumulada debaixo da cama.

No início ele não sabia se queria aquilo.

Olhou com cautela… Acabou indo comprar munições apesar da falta de necessidade. Mas se queria sentir novamente a explosão rápida de uma bala sendo acionada por um gatilho, teria que esquecer suas facas.

No fim das contas carregou a pistola com seus projeteis. Encostou o cano em sua têmpora e disparou. Caiu na cama e sentiu novamente seu cérebro se remexer.

Estava feito.

Ele voltaria a se matar mais e mais vezes até que, mais uma vez, as balas se acabassem.

Hoje não, camarada.

Já faz algum tempo; não muito pra dizer a verdade, que minha agressividade caiu estratosfericamente. Aquele espírito jovem com o passar do tempo foi simplesmente desaparecendo. O sangue ferve com menos intensidade.

Uns oito anos atrás eu tinha muito menos paciência pra conversar ao ser desafiado; nos dias de hoje resta pouco daquilo. Tudo o que se quer é apenas ficar na sua, sem ser incomodado… Depois de ver tantas crianças nascendo no seu círculo de amigos, a única coisa que pedimos é um dia de Sol, um pouco de sombra pra sentar, uma cerveja e um bom papo enquanto as “pestinhas” correm pela rua.

Não me julgo velho de forma alguma, mas há de se dizer que quando se atinge e ultrapassa a barreira dos trinta anos de idade, algo muda de uma hora para outra sem aviso.

O corpo continua o mesmo de quando se tem 25 anos, mas não reage da mesma forma. A cabeça parece ficar mais rápida do que a ação da testosterona. Um rapaz começa a virar homem depois dos trinta. Não tenho dúvidas disso.

Aquele ímpeto de partir pra bordoada vai desaparecendo ao mesmo tempo em que a língua fica afiada feito faca e mais eficaz do que um murro bem dado no maxilar.

Me acho jovem ainda. Mas pessoas mais jovens do que eu me irritam. Não por serem ativas demais; não por serem infantis demais… Acho que a impulsividade e a sede de dominar o mundo é o que me irrita; esse terrorismo que eles plantam. E não existe chacoalhão que dê jeito nisso. Os adolescentes passaram a me irritar. Pelos Deuses… O pior é que eu sei que fui chato da mesma forma, se não mais!

Se finda a violência mental e corporal com a chegada da idade, ao menos na maioria dos casos, acredito. Aí as palavras ficam mais ágeis, as respostas vazam como manteiga e a sinceridade pelo simples prazer de se dizer o que pensa aumenta. O medo some de se revelar.

A juventude é agressiva e se esconde atrás dos medos.

Os mais velhos são lentos e se revelam deixando os temores para trás de si.

Hoje olho para meus pais e sinto vergonha de ter cantado e encarado como hino a música “Aloha” da Legião Urbana. Sinto-me uma merda pisoteada por alguém usando AllStar.

Fico vendo as pestes correrem e gritarem nos salões com música alta. Eles pedem pra eu “passar reto” por eles.

– Hoje não, camarada. Senta no meu colo. Vou te ensinar a beber e a não ofender meninas com suas palavras sujas! Vamos lavar essa boca com Vodca até podermos ver aonde vai chegar essa sua masculinidade que vai sair num jato de bílis pela sua boca, jovenzinho panaca!

Pessoas.

Eu não sei o que acontece com o mundo… E não adianta eu dar uma de orgulhoso dizendo que “se foda”, pois eu realmente queria saber o que acontece com as pessoas.

Eu gosto de gente… Curto andar com pessoas, apesar delas me parecerem demasiadamente entediantes e mecânicas. Dá pra ler o que se passa na cabeça de uma pessoa.

Estes dias uma amiga veio chorar e eu não senti um pingo de empatia.

Não sofro de psicopatia, mas eu sabia as intenções. Dessa vez não consigo ter dó. Não dá.

O ser-humano vive numa batalha constante com os outros seres-humanos, e eu não faço a mínima questão de participar disso. Tudo é sempre um jogo, e eu não to afim de jogar essa merda!

Acho que é por isso que um dos meus maiores prazeres é beber sozinho ouvindo música. Eu não tenho que suportar os melindros de gente que depois vai agir com indiferença.

Adoro pessoas. Mas tenho um certo asco.

Acho que consigo ver as intenções de imediato.

Uma pessoa que é boa demais não pode ser confiável (exceto a Palmirinha), assim como pessoas que misturam feijão com macarrão… Não dá pra confiar numa pessoa assim!

Eu não sei… Eu não sei…

Tô meio rabugento com gente. Com gente que não desculpa. Com gente rancorosa. Com gente que não tenta. Com gente melancoliosamente falsa. Minha bílis salta pela garganta.

Amo observar pessoas desconhecidas no metrô enquanto vou para o trabalho; mas detesto observar meus amigos em geral. A maioria deles pelo menos.

Eu não sei… Eu não sei…