Isso me irrita!

Ir a bancos é sempre cansativo; sempre uma nova aventura!

Hoje tive que ir até o banco para realizar algumas transações (sou muito chique) e, com alegria, peguei a minha senha e me coloquei a sentar num dos bancos. Abri o livro “Jogos Vorazes” e continuei lendo da onde tinha parado no dia anterior. Até aí, tudo bem. Realmente o atendimento em bancos demora mesmo! Estava com minha senha e meu livro, logo, não ia me importar se fosse ficar lá sentado até oito horas da noite… Enquanto houvesse páginas para ler, eu estaria em paz.

Mas acontece que na fileira de bancos à minha frente, havia uma mãe e seu filho. Um gordinho de mais ou menos doze anos. Aquela fase insuportável em que os meninos começam a dividir brincadeiras e meninas e não sabem escolher o que querem; além de se acharem os donos do mundo. Mas aquele gordinho não. Parecia que ele só era dividido entre seus brinquedos, desenhos e gostosuras.

– Mãe, que horas são? – disse ele para a senhora ao lado dele.
– Duas e meia, filho.
– Mãe, vai começar o desenho. Quero ir ver a Discovery Kids (O “Kids” fez o menino soltar perdigotos, Kidssssss pruuufff… Baba pra tudo que era lado).
– Calma, filho.

Ele então pegou o papel da senha da mão da mãe para ver o numero e olhou para o painel… A esta altura eu já estava desconcentrado do livro.

– Mãe, quero ir embora AGORA! – Bradou o gordinho de forma imperativa.
– Calma, filho.
– Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora…

Aquilo me fez subir o sangue… E não só o meu, tenho certeza.

– Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora…

Como se não bastasse, a mãe simplesmente parou de responder o menino… Passou quinze minutos de “Mãe, quero ir embora” e daí ele começou a chorar repetindo a mesma sentença.

Eu ri… Tive que voltar umas três vezes a mesma página do livro simplesmente porque não conseguia mais prestar atenção.

– Mãe, sua senha é a 76 ainda… Quero ir pra casa.
– Para de dar show, filho… Tá todo mundo olhando.

Nessa hora pensei:  “ah, velha. Vai tomar no seu cu. Enfia a porrada nesse moleque e dá motivo pra ele chorar!”.

– Eu não ligo para ninguém – disse ele aos berros e babando enquanto chorava, naquela mistura de ranho com saliva, sabe? – Ninguém aqui paga minha conta!- gritava ele.

A minha senha era a 70; a deles, 76… Realmente ia demorar um bocado, apesar de, a esta altura, eu ser o próximo no atendimento.

Eu ri mais uma vez, fechei o livro e pensei numa solução para este caso.

SOLUÇÕES DO CHARRO PARA TAL SITUAÇÃO:

Solução numero 1:
Inclinei meu corpo um pouco a frente e disse para a mãe:
– Hei, velha! Leva esse moleque embora, porque se você não levar, levo eu!

Solução numero 2:
– Toma, pega minha senha e me dá a sua. Vai em meu lugar, mas pelo amor de Deus, faz esse moleque parar de chorar e cuspir pra todo lado. To ficando com náuseas.

Solução numero 3:
Peguei umas bolas de plástico e fiz algumas ligações. Comecei a fazer malabarismo no banco para distrair o gordinho, logo meus amigos chegaram e entraram no banco cuspindo fogo para cima, andando em monociclos! Até o Patati e Patatá estavam lá. Cena de circo mesmo! O menino sorriu e parou de babar.

Solução numero 4 (minha preferida):
Respirei fundo e fechei o livro. Com a lombada do mesmo, dei uma cacetada na cabeça do infeliz e disse bem baixo no ouvido dele com os dentes serrados:
– Seu gordo filho duma puta, você para de cuspir em mim e para de chorar antes que eu te de uma surra de livro que você vai suar tanto que vai perder uns quinze quilos em cinco minutos; só que não vai parar por aí. Quando eu terminar, vou enrolar esse livro e vou enfiar no seu cu! Você tem noção do que é receber 397 páginas no seu rabo? Eu também não, mas vou saber ao ver sua reação. Você vai ficar tão escoriado que vão pensar que você foi com a camisa do palmeiras lá no meio da torcida do Corinthians, seu retrato falado de mamute. Espera a porra dessa senha calado, se não, meu chapa, vai demorar mais ainda pra tu chegar em casa, porque antes disso, vai ter que dar uma passada no hospital, ta me entendendo? (plaft. Outra batida com a lombada do livro na nuca do gordo.

A mãe dele me sorriu graciosamente agradecendo minha atitude. Todos no banco aplaudiram, foi uma festa. O gerente pulava e dava socos no ar. Os caixas gritavam o meu nome e chamaram minha senha. Eu andei imponente até o caixa. A multidão no banco abria caminho para mim e me aplaudia fervorosamente.

 

Bom… Mas não fiz nada disso.
Limpei os perdigotos na minha mochila e fui ao caixa quando fui chamado.

Ao sair do banco, ainda era possível ouvir:

– Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora. Mãe, quero ir embora…

Lonidan e Nobru.

Hummm… Não gostava deles. Não mesmo! Nenhum pouco.
Dois moleques com cabelo tigelinha, calça rasgada e skate na mão… Essa foi a primeira vez em que os vi.

Mais tarde descobri que os filhos da mãe xerocaram meu livro de vampiro… Eu quis morrer com isso!

E mais tarde ainda fugi deles quando íamos à um encontro de RPG. Mas não tem jeito…  Eles grudam demais e me encontraram em meio a fuga!

Demorei pra gostar deles… Foi no caminho do bairro até a estação de metrô! Na metade já estávamos cantando Mamonas e falando de menininhas!

É… O tempo passa!

E foi esse maldito tempo que fez com que nos apegássemos demasiadamente: As jogatinas de RPG, as festas, as vomitadas simultâneas e as companhias em momentos alegres e depressivos.

O tempo escoou mais ainda. As mudanças, os filhos… O gosto por vinho e bons filmes e mais filhos… Os filhos dos amigos, os sobrinhos e por aí vai.

E tudo o que é bom, com o tempo, só fica melhor ainda! Assim como um bom e velho Cabernet ou Wisk, apresentados a mim pelo Danilo, ou como as boas literaturas fantásticas das quais o Bruno insistia que eu as lesse.

Pois bem, seus dois burocratas fanfarrões! Os “Popzinhos São Francisco >> Burgo!!!!

Não resta tantas palavras à vocês, até porque eu nem gosto tanto de vocês assim! Continuo detestando pela força do vampiro xerocado !

Parabéns, par de 3 com manilha em 2.

Na verdade, apesar da distância, vocês sabem meu amor por vocês, e isso não muda, afinal, o que era uma amizade de RPG evoluiu para mais de anos que nem sei mais contar, de amizade sincera e pura…

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Parabéns, paspalhos.

O Velório.

Pegue aqueles traços delicados que sente ao roçar sua pele; o busto de cerâmica em que outrora pareciam tão macios.

 Veja! Não seria este o velório de sua vida ao imaginar que o cheiro sem perfume algum da pele que ardia, hoje, já é tão mais agradável do que o odor vulgar que invade o recinto? Este não seria o abandono da fortuna que antigamente as notas eram tão mais novas, verdes e sinceras?
Não, meu amigo. Ninguém esteve vivo para morrer; ninguém ficou rico para empobrecer.
O que passa é que teu úmido vazio se deixou estraçalhar pelo tempo que vazou pela torneira durante todas as manhãs em que você acordava e lavava teu rosto ao mesmo tempo em que pensava: “O que foi que aconteceu?”.
A ilusão te custou a sorte que antes era abundante; da qual, agora, nada mais resta.
Anda pelas noites escuras entre ratos embriagados tentando descobrir o que faz falta.

Mas nada parece fazer falta. Nada parece sem respostas.

Você sabe a resposta!

Pegue aqueles traços delicados e o busto de cerâmica…

Diga-lhes que estava enganado.