Enrolando o tempo.


A fumaça do cigarro rodopiou e, após o trago, subiu até a lâmpada amarelada.

Ela enrolou preguiçosamente observando o lustre, o formato dos cacos de vidro que o enfeitavam, e ali, parecendo pendurada, a lâmpada.

Muitas coisas ficariam melhores ali naquele lugar; mas faltava-lhe a coragem de enfeitar ainda mais aquele lustre.

Olhou para a garrafa de vodca que ainda estava pela metade. Metade cheia, metade vazia…

E ela enrolou e enrolou. Apenas parava de enrolar nos períodos entre tragos no cigarro e uma sorvida de bebida.

O teto lhe pareceu inalcançável, mas o banco poderia resolver o caso. Só que sua fobia de altura impedia que subisse.

Ela então, descalça, foi até a vitrola e a desligou com um belo soco que fez o aparelho desabar no chão. Nick Drake não! Não, ela não queria mais lembrar da história de homens fracassados que apenas conseguiram o sucesso depois de um suicídio!

Chega. Não haveria mais suicídios!

Olhou para o aparelho telefônico e resolveu consultar a secretária eletrônica!

Nada de mensagens. Nada de parentes querendo saber sobre ela… Não havia amores, não havia nem mesmo inimigos desejando sua morte. Não havia nada.

Que falta lhe fazia um inimigo, alguém que, ao menos de vez em quando, pensasse nela. Qualquer coisa era válida para sua infortunada vida.

Pensou naquele momento que um cão poderia lhe fazer bem, mas será que ela faria bem ao animal?

Desistiu e acendeu outro cigarro.

Ela enrolou… Sentou na cadeira e enrolou o que faltava.

Era preciso coragem. Dizem que é o contrário, mas a covardia e a fobia que faziam ela enrolar. Bebeu mais um pouco e a vida lhe pareceu mais feliz.

Quem precisaria da porra de uma família? Quem precisava de amigos ou inimigos?

Com sua covardia ela enrolou e terminou. Por fim olhou para o lustre. É, ele nem se quer agüentaria seu peso.

Assim que acabou de enrolar, guardou a corda e foi dormir.

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3 Comentários

  1. No dia seguinte, ela acorda e sorve a outra metade da garrafa de vodca, a ideia fixa não a abandona… ela vai se matar!

    Se dependura no lustre…, mas a tonta nem sabe fazer o nó na corda direito! Cai em cima do aparelho telefônico, apertando várias teclas…e, acidentalmente, liga para Sérgio Charro; leva o fone ao ouvido e diz “Alô, desculpe, te liguei por engano”, então ele responde: ” rs Elda, vc tá lokoooona!”

    rsrsrsrsr aaaaahhhhh …quaaaaaanta bobaaaagem….

    —–
    Me lembrei do Thomas qdo li isso.

    • hauahuahua Só você mesmo, Elda! rsrsrs. E ainda desligou na minha cara rsrsrsrs

      • nãããão… acabou o crédito mesmo =/ rs


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