Feliz aniversário.


 Por: Sérgio Charro. 

   Ergui minha cabeça que estava jogada no balcão. Olhei ao redor. Meu copo de cerveja ainda estava pela metade e eu ainda sem saber direito o que estava fazendo naquele puteiro.

  As meninas de mini saia, bem “mini” mesmo, dançavam e escorregavam pelo cano de ferro exibindo as nádegas para o público que se amontoava em torno do palco. Bando de malucos. Do balcão eu tinha uma vista bem melhor, mas eu não estava me importando muito com aquilo. Os filmes que passavam nas telas espalhadas por toda a casa noturna mostravam o sexo nojento e explícito. A mulher chupando e se lambuzando enquanto o rapaz parecia mais fazer cara de conteúdo do que de excitado; certamente era um filme dirigido por algum macho. Um diretor sem o mínimo tato para o sexo.

  Certa vez assisti uma reportagem que falava sobre filmes pornográficos. Diziam que os filmes dirigidos por mulheres eram bem mais sensíveis do que os dirigidos pelos machos sedentos; resolvi tirar a prova. Fui à locadora e peguei dois. A menina do balcão tentou agir naturalmente e, sinceramente, achei engraçado. Tanto balconistas homens como mulheres que trabalham neste ramo, fingem não se importar, mas devem ficar pensando: “Lá vai ele se masturbar”. E quanto mais filmes você pega de uma vez só, mas eles fazem cara de impressionados, fazendo o possível para marmorizar a face. Não me venham dizer que eles fazem a mesma feição quando você aluga “Branca de Neve” ou “As Aventuras Anais de uma Lolita Maluca”. Não. Não fazem, não.

  Levei para casa e assisti um atrás do outro. Primeiro o filme de macho. Assisti quinze minutos antes de sentir o liquido escorrendo por entre meus dedos. Depois coloquei o filme para moças.

  Constatei que os filmes dirigidos por homens são mais diretos, como se dissessem aos atores: “Você chupa ele, depois ele te chupa; vocês transam e ele goza na sua boca. Consegue fazer isso em vinte minutos?”

  Já os filmes de fêmeas são mais eróticos, existe a paixão, o envolvimento entre os atores. Um envolvimento capaz de fazer você lembrar das três primeiras vezes com a nova namorada. Mas só as três primeiras. Depois disso já não é mais amor, e sim sexo. Um sexo dirigido por homens.

  Eu devia manter em mente que entrei ali apenas por falta de um lugar para beber minha cerveja, era ó isso. Pensava na vida enquanto as meninas se exibiam pelo salão procurando com as pernas nuas onde estava o dinheiro da noite. Pulavam de colo em colo; por alguns, elas até se deixavam ser tocadas. Os que mais iam com a cara, permitiam uma masturbação rápida ali mesmo para que o possível cliente testasse o produto como se compra uma caneta. Se riscar, nesse caso molhar, estava bom; do contrário os homens procurariam outra, a não ser que a bunda fosse excepcional. Aí nem ligavam para mais nada.

  Garota por garota foi saindo do salão acompanhadas de homens que nada tinham pra fazer a não ser espalhar seu sexo por aí. Homens que achavam que sabiam fazer sexo.

  Encostei de novo a cabeça no balcão. Queria ir embora, mas pedi mais uma cerveja. Já estava tonto e sonhava com minha cama, mas era meu aniversário solitário. Eu tinha que comemorar de alguma forma. Devia fazer algo por mim mesmo. Engoli logo a cerveja e pedi uma caipirinha; ela veio aguada, não sei porque, mas veio. Tinha mais gelo do que líquido. As pedras gelavam meus lábios a cada gole, e foi então que eu a vi.

  Morena, magérrima, mas com um corpo bem modelado. Ela dançava e dançava com um jeito de menina, sorria para os homens. Muitos queriam levá-la dali para trepar e quem sabe até quebrá-la ao meio de tão delicada que parecia.

  Fiquei a assistindo rebolar, senti o volume em minha calça, mas logo me acalmei. Eu não estava ali para aquilo, não queria aquilo. Só queria minha cerveja. Mas ela me provocava sem nem ter me notado.

  Preferi me distrair, fui ao banheiro. Fui com intenção de liberar meu gozo no mitório apenas para garantir que eu não levaria ninguém dali para a cama. Tentei um pouco, mas não consegui. Senti-me constrangido com a cena. Um pouco ridículo talvez.

  Voltei para o balcão e pedi mais uma cerveja e, quando olhei para o banco do lado, lá estava ela. A ninfeta que dançava, tão delicada quanto uma rosa linda no inferno. Sim. Ali era o inferno.

  Ela estava ali, ao meu lado, rodeada de marmanjos que passavam a mão em seu corpo. Ela fazia charme. Um tapinha na mão de um, um empurrãozinho em outro. Eu no meu canto quando ela me olhou e disse para os outros:

– Olhem ali um moço comportado.

  Ela se levantou e repousou a pele de seus glúteos no meu colo. Eu sem saber o que fazer.

– Eu prefiro ficar aqui com ele. Ele sim vai conversar sem encostar um dedo em mim.

  Ela me olhou e sorriu enquanto os homens ali amarraram a cara e saíram aos poucos.

– Qual seu nome? – Ela me perguntou.

– Cícero.

– E então, Cícero. Procura algo a mais por aqui ou só vai ficar bebendo uma cervejinha?

  Eu não soube o que responder. Pensava apenas em cachorrinhos mortos para que meu corpo não me delatasse.

– A principio, apenas a cerveja.

  Ela se levantou, ergueu o corpo e se aconchegou em cima do balcão passando as pernas de modo que minha cabeça ficasse entre suas pernas. Sorri sem graça enquanto evitava olhar a calcinha minúscula rodeada pela saia tão curta que mais parecia uma cinta.

– Você me parece tão tímido. Foi isso que me chamou a atenção em você.

  “Vaca mentirosa”, pensei. Eu era o mais arrumado e perfumado dali. Ela devia saber que eu estava com dinheiro.

– Será que você pode me falar o seu signo? – Ela questionou.

– Peixes, e o seu?

– O meu é peixes também! – Ela exclamou com um sorriso que me cativou.

  Desviei o olhar e pedi mais uma cerveja. Mentira. Pedi duas. Ela pegou uma e eu a outra. Perguntou-me se eu era hétero. Eu disse que sim. Ela pareceu surpresa e disse que eu tinha um jeito muito reservado e delicado para parecer ter preferência por mulheres. Eu sorri a ela e disse que educação não era viadice. Era mentira minha. Sempre fui Bi-sexual, mas ela não precisava saber disso.

  Conversamos por muito tempo. Falamos sobre a chuva que caia lá fora, falamos mais sobre o zodíaco. Aprendi que a maioria das mulheres, putas ou não, se interessam por este assunto, levam a sério como se aquilo pudesse dizer muito sobre uma pessoa. Eu não acreditava em nada daquilo, mas por ter um pai ocultista, sabia falar sobre esses assuntos. Fingi acreditar enquanto ela fingia estar se interessando.

  Tempo depois, quando voltei àquele bordel, descobri que talvez ela tivesse sido sincera. Talvez, pois o dono do estabelecimento me disse que ela trabalhou ali apenas uma noite e depois desapareceu. Foi bem a noite que eu estava lá. Orgulhei-me, mas me senti vazio por não poder mais vê-la, conversar e…

  Conversamos muito mais entre um copo e outro. As latas de cerveja preenchiam o balcão enquanto o lugar esvaziava. Na hora de ir embora, notei que estava pagando mais. Nem havia percebido que eu estava levando ela para terminar a noite no meio de uma gozada.

  Descemos alguns corredores que havia dentro do estabelecimento. Chegamos em um lugar decrépito e um homem me entregou uma camisinha, um sabonete de motel e uma toalha.

– Qual seu nome? – Perguntei quando estávamos frente à porta do quarto.

– Carioca. As pessoas me chamam de carioca. – Ela abriu a porta. – Quer tomar um banho antes?

  Eu acenei que sim.

  Ela me levou ao chuveiro e tirou minha roupa, se despiu em seguida e adentrou na água morna junto comigo. Nosso corpo roçou e ela me beijou.

  Beijo? Eu achava que elas não davam beijo nos clientes. Mas ela me beijou de tal forma que não pude sentir nojo. Gostei.

  Fomos para a cama que ainda estava bagunçada pelo casal anterior. Aquilo sim me deu nojo, mas quando olhei novamente para aquele corpo esguio, modelado, delicado; tudo o que quis era entrar pelo meio de suas pernas e rachá-la ao meio com força. Queria testar a delicadeza dela. Ela me pediu para que fosse de vagar no começo. Senti-me com uma virgem, mas cumpri o pedido.

  Carioca. Não tinha sotaque algum, mas era assim que a chamavam. Carioca. Eu sussurrava: “Carioca”. Para ela inúmeras vezes enquanto entrava e saia de dentro dela.

  Meu suor com o dela. A nojeira daquele quarto com a gente. Eu gozaria de tal forma que os espermas derramados ali por outros homens aplaudiriam a saída dos meus. Ovacionariam cada gota lançada por mim dentro do preservativo. Teria sido assim se depois de meia hora a porta não sofresse as batidas grosseiras do lado de fora com a frase de uma voz grossa e impaciente: “Acabou o tempo”.

  Ela me olhou. Perguntou se eu havia gozado e lamentou com a minha negativa. Ela ficou séria. Eu em cima dela, ela com suas mãos no meu rosto e um olhar fixo dentro de meus olhos. Senti-me amado por um breve momento até lembrar novamente que ela era uma puta e estava fazendo seu serviço. Caçando clientes fixos para as próximas noites.

  Tive vontade de levá-la embora dali. Levá-la comigo e tratá-la como a rainha da minha cama e de meu tesão. Vontade de não parar mais de trepar, entrar e sair daquele corpo de pele lisa e morena. Vontade de enxugar seu corpo úmido com a boca. Sugá-la para dentro de mim e nunca mais permitir que saísse. Fazer de minha cama seu cárcere privado. Fazer dela minha escrava para o prazer.

  Saímos do quarto. Ela fez questão de me levar até a saída do puteiro.

 Quando saí caminhando debaixo da chuva e do céu que já estava claro, olhei para trás, do outro lado da rua ela me olhava, olhava e olhava até eu desaparecer dela e ela de mim na esquina em que dobrei.

  Nunca mais veria aqueles olhos e aquela cintura, aquela bunda, os pés e o rosto. Nunca mais, por mais que estivesse decidido a voltar. Eu não poderia desposá-la. Fazer a mais linda história do homem que amou a puta e a tirou das ruas daquela São Paulo triste e implacável.

  Parei no primeiro muro escondido para remover a camisinha que eu nem se quer tinha lembrado de tirar de tantos devaneios que tive enquanto ainda estava no quarto. Enfiei a mão por dentro da calça e puxei a borracha já seca. Olhei para aquele saco vazio. Estava vermelho. Vermelho de sangue já seco. Um sangue ralo.

  Passei a mão pelo meu cabelo bagunçado.

  Fui para casa pensando seguidamente: “Era apenas menstruação,. Feliz aniversário”.

*****

Está aí um conto que escrevi e nunca ninguém entendeu o final… Tem palpite? Deixa um comentário.

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3 Comentários

  1. Realmente com esses temas você se sai melhor do que com “Meio Ambiente”, rs.

    Porque menstrução? Ela poderia mesmo ser virgem,né??? Seria interessante…

    • rsrsrs

  2. Feliz aniversário rs


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